
A menos de 40 quilômetros do marco zero, a floresta revela um charme encantador e rica biodiversidade
Apesar da exploração dos caçadores e da expansão imobiliária, o pulmão da Grande São Paulo, situado em Cotia, respira forte e saudável.
Longe da poluição, do trânsito e da loucura do dia a dia, a Reserva Florestal do Morro Grande, uma das maiores florestas em área urbana do Planalto Atlântico Paulista, é um refúgio desconhecido que faz o coração do município bater forte. O paraíso ecológico é composto das represas da Graça e Pedro Beicht e contempla biodiversidade da fauna, com macacos, onças-pintadas, jaguatiricas, quatis, tucanos e arapongas, e uma riquíssima flora – são quase 700 espécies de árvore − responsável pela formação de uma paisagem exuberante, talvez a mais bela de toda a região.
Conheça agora um pouco mais da Reserva que manda água e ar puro de monte para milhares de habitantes.
A Reserva
Demarcada pela área da Unesco, a Reserva do Morro Grande ocupa quase 11 mil hectares do município − o equivalente a um terço da área total de Cotia − e está sob a responsabilidade da Sabesp, devido aos seus mananciais. O remanescente de Mata Atlântica ainda é preservado, e sua flora se exibe em cores e formatos artísticos.
Sobre a fauna nem se fala. Apresenta-se como se fosse uma aparição única e exclusiva.
Os mananciais são responsáveis pelo abastecimento de água de considerável parte da região metropolitana, e sua preservação deveria ser de suma importância. Os rios Capivari, dos Peixes, Cotia e da Graça nascem dentro da Reserva, alimentando o Sistema Alto Cotia, englobando as represas da Graça e Pedro Beicht, além da Estação de Tratamento que distribui água para mais de 400 mil pessoas que habitam na Grande São Paulo.
É comum encontrar pelas trilhas estudantes e pesquisadores de instituições como USP e Unicamp, que promovem pesquisas importantes sobre as diferentes espécies que ali habitam.
Apesar de toda a importância da Reserva, demorou um pouco para que os primeiros trabalhos científicos sobre o local fossem elaborados e publicados. Isso ocorreu apenas a partir de 1992, sendo que os primeiros levantamentos de fauna e flora datam de 2004 (o mais atualizado e recente levantamento da avifauna local foi publicado apenas em 2006). Em um levantamento realizado entre os anos 2001 e 2003 foi registrado um total de 198 espécies de aves, sendo diversas endêmicas e mais de dez ameaçadas de extinção.
Já um estudo publicado em 2006 afirma que foram listadas 18 espécies de mamíferos de maior porte. Na época, os pesquisadores responsáveis já haviam constatado que a fauna se apresentava bastante alterada em consequência do impacto das atividades humanas à sua volta, o que levou a crer que a Reserva Florestal não seria capaz de preservar a integridade desses mamíferos.
De acordo com o secretário de Meio Ambiente Rubinho Gurgel, grande parte dos moradores de Cotia ainda não sabe da existência da Reserva, que hoje recebe olhares atentos dos profissionais da Secretaria de Meio Ambiente. “As pessoas se preocupam em preservar a Amazônia. Por que não preservar primeiro o que está bem aqui ao nosso lado? Por que não preservar a nossa fauna? Muita gente não sabe, mas temos onças aqui.”
A Reserva sofreu e ainda sofre fortes perturbações, em particular devido à caça, ao extrativismo vegetal predatório e à entrada de espécies exóticas e invasoras. A floresta está situada sobre embasamento cristalino, acima da Serra de Paranapiacaba, em altitudes que variam de 860 a 1.075 metros, numa região de transição entre o clima pluvial tropical do litoral e da encosta Atlântica, com o clima estacional do interior do estado. Portanto, a previsão climática comum é temperada quente e úmida, sem uma estação de seca bem definida. Os levantamentos biológicos realizados nos últimos cinco anos vinculados ao Programa Biota/Fapesp na Reserva Florestal do Morro Grande permitiram inventariar mais de 13 mil indivíduos pertencentes a 673 espécies de árvores, mamíferos não voadores, aves, répteis, anuros e aranhas orbitelas.
O entorno
O entorno da Reserva possui pequenos trechos de degradação.
Com o intuito de mudar esta realidade, a Sabesp apresentou, no ano passado, um protocolo de intenções à Prefeitura de Cotia para, juntas, cooperarem na implementação de um Polo de Ecoturismo dentro da Reserva Florestal. A iniciativa prevê entregar à população de Cotia e região uma nova área de lazer, com espaço para a prática de esportes e a realização de projetos de educação ambiental para alunos de escolas públicas e moradores do entorno. O polo também deverá abrigar cursos de capacitação sobre artesanato, viveirismo e monitoria ambiental, entre outros temas. O objetivo é que a mão de obra local possa ser aproveitada nas atividades voltadas para o turismo. O projeto de implantação do polo foi entregue à Sabesp e à Secretaria Estadual de Meio Ambiente em setembro do ano passado pelo ex-secretário de Meio Ambiente Laércio Camargo.
O atual secretário, Rubinho Gurgel, logo que assumiu a Pasta, disse que daria continuidade ao projeto e reuniu técnicos da Sabesp e representantes da prefeitura para agilizar o processo de implantação.
A Sabesp ofereceu sete casas que lhe pertencem para a infiltração de importantes núcleos que farão parte do polo, no entanto, de acordo com o atual secretário, todas as 24 casas situadas na entrada do Morro Grande serão utilizadas para a fixação da base da guarda ambiental, casa do artesão, posto de saúde, creche, espaço para capacitação profissional, entre outras propostas.
A Ferrovia
A estrada de ferro que liga o Porto de Santos a Mato Grosso, operada pela América Latina Logística (ALL), corta a Reserva do Morro Grande e deve ser duplicada. No entanto, o Conselho Municipal de Desenvolvimento Ambiental e Rural (Comdar) quer respostas consistentes no que diz respeito à duplicação e seus impactos sobre a Reserva.
No dia 7 de maio de 2009, um acidente na ferrovia causou um grande vazamento de óleo e colocou em risco o solo e a água. Uma peça de ferro que fica ao lado do engate da locomotiva soltou-se juntamente com o engate nos trilhos e enroscou no tanque da locomotiva que, com o impacto, furou. O acidente despejou cerca de 14 mil litros de óleo diesel na Reserva.
Outro problema que pode ser visivelmente constata
do é o fato de as pessoas andarem livremente pelos trilhos, já que a área da ferrovia é completamente aberta.
A essência
A Reserva Florestal do Morro Grande foi criada em 1979, pela Lei Estadual nº 1.949, com o intuito de proteger as nascentes e os cursos d’água formadores do Rio Cotia. Desta forma, garantiu-se a preservação de uma área de mata muito próxima à capital paulista. Em 20 de junho de 1981, foi assinada a Resolução 2 de tombamento da Reserva Florestal do Morro Grande pelo Condephaat, que a considerou “ecossistema digno de ser preservado quanto à sua cobertura florística, à fauna e aos seus mananciais, além de suas condições paisagísticas, topográficas e valores climáticos, constituindo conjunto de inegável interesse cultural e turístico do estado de São Paulo”.
No ano de 1994, a Reserva foi também inserida como área núcleo na Reserva da Biosfera do Cinturão Verde da Cidade de São Paulo, recebendo assim um reconhecimento internacional pelos significativos serviços ambientais que propicia não só para o município, mas também para o estado e até mesmo para o país, dada a quantidade de pessoas que serve. Neste mesmo ano, A Selva – Sociedade Ecológica Verde Amarelo foi criada com o intuito primeiro da preservação da Reserva, mediante a educação ambiental das populações subjacentes e a proposta de novas alternativas de autossustentabilidade. No entanto, se não forem mantidas suas características e composição originais, a preservação dessas matas não vai garantir a manutenção de todos os seus serviços biológicos.
O aumento da fiscalização é imprescindível, e a inclusão de trabalhos de educação ambiental deveria ser urgentemente proporcionada como forma de minimizar os distúrbios causados pela entrada e circulação de pessoas nas trilhas, principalmente os caçadores.
A conservação da Reserva depende diretamente do estabelecimento de um plano de manejo que consiga tirar vantagens da proximidade à cidade de São Paulo, em termos de pesquisa científica e projetos educacionais/turísticos, e estabeleça o controle das espécies exóticas, da caça, do extrativismo vegetal e da ocupação inadequada do seu entorno imediato.
Para a diretora de Turismo do município de Cotia, Cristina Oka, a Sabesp deveria providenciar o zoneamento e o plano de manejo da área, o que garantiria que qualquer atividade realizada na floresta estaria compatível com os objetivos de conservação.
Fonte: http://www.biotaneotropica.org.br
Agradecimentos: Secretaria do Meio Ambiente de Cotia; Rubinho Gurgel, que acompanhou a equipe da REVISTA CIRCUITO por toda a Reserva; e Cristina Oka.











