Sexo e tragédia: Marcos Sá escreve sobre o papel da mídia nos dias de hoje

Nosso colunista escreve que "jornalismo se faz com seriedade e com constante busca pela verdade, não com bravatas".

Aposto que as duas palavras do título chamaram a sua atenção para esta coluna. Nos anos 70/80, um jornal do grupo Folha de São Paulo chamado Notícias Populares ou simplesmente NP, tratou desses temas com maestria e trouxe à tona aquilo que todos os veículos já sabiam, mas poucos exploravam. Sexo e tragédia eram os assuntos que mais vendiam no jornalismo e noticiário do Brasil. O NP misturava as duas coisas e usava o humor como pano de fundo das suas manchetes. No dia em que o compositor Sérgio Ricardo foi vaiado em um festival de MPB na TV Record e atirou seu violão contra a plateia, a manchete do NP estampou: “Violada em pleno auditório”. Hilário. Nos bastidores, os donos dos jornais diziam à boca pequena para seus editores: “O que vende jornal é presunto e mulher pelada”. E assim, alguns veículos usavam as duas temáticas conforme seu público e objetivos e os assimilavam. Não é à toa que o clipe Envolver da Anitta está no topo dos acessos do Spotify. Não pela qualidade da música, que é sofrível, mas sim, pelas cenas que simulam sexo da moça de Honório Gurgel. Os tempos mudaram, mas ambos os temas continuam no radar dos editores. A tal NOM, Nova Ordem Mundial, determina os novos parâmetros da mídia. A lacração, o politicamente correto, a militância política e o bom-mocismo pautam os novos salvadores do planeta, que não passam de salvadores da própria pele. Esses itens começaram a determinar parte da mídia e se juntaram ao sensacionalismo barato, em que o que vale é a má notícia, que vem com jeito de “sabemos o que é bom para você”! O tal quanto pior melhor. Segundo os editores dos maiores veículos de informação do país, boa notícia não vende. Então, você é bombardeado pelas más notícias diariamente. Quando a novidade é boa, dão um jeito de transformá-la em coisa ruim. A conjunção adversativa mas tem sido usada constantemente para induzir o leitor a não achar tão boa a boa notícia. Exemplo: o preço do dólar caiu, mas deve subir em breve. Ou ainda: o PIB do Brasil é o maior dos últimos anos, mas o da China cresceu mais. E por aí vai. A Folha de São Paulo chegou ao cúmulo de inventar um neologismo para apagar o lado positivo da matéria. Descolou o verbo “despiorar” (até o corretor do meu notebook tentou corrigir o termo várias vezes), que significa, sei lá, parou de piorar? Ou piorou menos? Sabe-se lá o que o infeliz tentou dizer. Mas o fato é que a intenção dele é não dar a história como ela é, e sim como ele quer que ela seja compreendida. Exemplo real que a Folha manchetou: A Economia dá sinais de “despiora”. Chega a ser ridículo, o esforço generalizado da mídia em distorcer as notícias. Temos visto até jornalistas defendendo a censura, quando a mesma ataca seus adversários. Vale tudo, desde que atenda aos interesses dos grandes grupos de comunicação. Esse bombardeio diário de negativismo, a falta de compromisso com os fatos, com a verdade, informações misturadas com opinião e interpretação que ninguém pediu e a busca desenfreada do sensacionalismo apocalíptico, do quanto pior melhor, desencadearam um efeito perverso na audiência. Ao invés de atrair e fidelizar seus públicos, fez com que as pessoas deixassem de acreditar nos veículos tradicionais e os empurrou ladeira abaixo, para as redes sociais e mídias alternativas, onde as matérias não têm a interpretação que interessa aos grandes grupos de comunicação que as divulgam. A luz vermelha acendeu os números de audiência das redes de televisão e os gráficos de assinatura e venda dos grandes jornais despencaram. Os leitores, antes ávidos por notícias, se desiludiram com o mar de negativismo e malabarismos das mídias. Agora, os donos da verdade, apoiados pelo noticiário, querem censurar, banir e criar regras nas redes sociais. Tudo para tentar diminuir seu poder democrático e centralizar a informação nas mãos dos oligopólios. Uma pena.


Por Marcos Sá, consultor de mídia impressa, com especialização em jornais, na Universidade de Stanford, Califórnia, EUA. Atualmente é diretor de Novos Negócios do Grupo RAC de Campinas

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