Quando o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade escreveu o poema No Meio do Caminho recebeu duras críticas de várias pessoas, afinal, sete, dos 10 versos, repetiam a expressão “tinha uma pedra”. Este poema foi publicado em 1928, na Revista de Antropofagia. Por que será que Carlos Drummond insistiu tanto na redundância deste verso?
Como toda poesia, muitas vezes, o significado para o autor é diferente para quem lê. O que faz sentido nesta poesia, e que até justifica o número de vezes em que ele repetiu a mesma expressão, é o olhar de que essa pedra no meio do caminho são as nossas dores, as nossas dificuldades. As pedras são os acontecimentos que nos marcaram, que nos entristeceram.
Mas aqui a questão é um pouco mais complexa, pois sabemos que essas pedras sempre surgiram e ainda surgirão. O que importa, para nós, é refletirmos no seguinte: o que fizemos com as pedras que surgiram em nosso caminho?
Quando surge um problema, muitas vezes, queremos transferi-lo para alguém. Queremos um culpado ou alguém do nosso lado para chorar as nossas dores. Algumas vezes, inclusive, não aceitamos e atiramos a pedra no primeiro que aparece em nossa frente, quando descontamos nos outros aquilo que não aceitamos em nós.
Mas o que fazer diante dessas pedras que surgem em nosso caminho? O primeiro ato é: parar diante da pedra, respirar fundo e tentar entender o motivo de ela estar bloqueando a nossa passagem. Fazendo isso, vamos, na maioria das vezes, entender, que nós mesmos, em determinado momento, colocamos a pedra em nosso próprio destino durante a jornada. Raríssimas vezes lembramos, mas somos os principais responsáveis pelo que acontece com a nossa vida.
O que nos encoraja é saber que se tivemos a força para colocar uma pedra no meio da estrada, também temos a mesma força para removê-la de nossa frente. Sem ira, sem ódio e sem condenações alheias. Apenas retire quando se sentir capaz.
A pedra é nossa aliada, pois é ela quem vai nos ajudar a pensar na razão de estar ali parada. Não fossem essas pedras, iríamos nos perder com muito mais facilidade, levando em consideração que queremos correr o tempo todo, e esse obstáculo nos faz parar e refletir, pelo menos por um instante que seja.
Carlos Drummond de Andrade, no meio do nosso caminho também há pedras, porém, poucos, infelizmente, conseguem removê-las sem atirá-las em outrem.
Somente o amor é capaz de remover a dor, é capaz de remover as pedras em nosso caminho, as pedras em nosso coração.
Juntemos as pedras, uma a uma, e abramos, aos poucos, a estrada de nossa vida para enxergarmos um novo horizonte em nossa frente.
Por Neto, que além de Poeta, é também arte-educador. Criou a Oficina de Ritmos Alternativos Pedagógicos, ensinando crianças e jovens com as ferramentas da cultura e da educação popular.

















