
Que em muitos casos e localidades do Brasil o preconceito racial é algo incrustado na sociedade e enrustido no cotidiano de muitas pessoa, é um triste fato, mas um olhar mais atento à essas desprezíveis situações, é possível captar constrangimentos imorais, transtornos criminosos e até em alguns casos, o roubo de um futuro melhor para indivíduos que deveriam ser tratados como iguais.
Ezequias Ferreira Santos, hoje com 24 anos, quase abandonou a escola, em Cotia, aos 17, por causa do preconceito racial que sofria de ‘amigos’.
“Sofri muito. Me chamavam de nomes pesados para serem repetidos. Por conta disso, me afastei de muita gente e sofri solidão. Quase abandonei a escola para evitar essa situação”, declara Ezequiel.
Sonia Maria, que aos 58 anos voltou a estudar, sente a mesma coisa por parte de uma de suas professoras.
“Tanto eu, como algumas colegas de classe negras, sentimos que há um tratamento diferente por parte de uma professora. Um tratamento mais áspero, mais rude”, afirma.
Sonia chegou a comentar com as amigas sobre esse fato, que também concordaram com a estudante, mas decidiram não levar esse sentimento adiante.
“Chegamos ao consenso que não adianta questionar esse tipo de conduta, pois a pessoa apenas irá negar essa situação. Há pessoas que não mudam”, diz Sonia.
Robson Santos, Ivani Aparecida Davi Severina e Márcio Santos já passaram pelo constrangimento de diversas vezes serem seguidos dentro de uma loja por seguranças ou funcionários.
“Para algumas pessoas, só o fato de ser negro já é um ato suspeito”, diz Ivani.
De acordo com Robson, diversas vezes notou funcionários de lojas localizadas na região central de Cotia o seguindo e observando de longe a cada lugar da loja que transitava.
“Eu percebia que não era apenas para prestar atendimento e sim para ver se eu não iria roubar nada. Sai várias vezes sem comprar o que precisava incomodado por ser tomado como uma pessoa suspeita por causa da minha cor”, afirma Robson.
Márcio Santos diz que sentiu a mesma coisa que Robson, e em muitos casos não é apenas uma falta de preparo dos funcionários e sim uma falha como ser humano.
“Vejo isso como uma falha na formação de um ser humano. Pessoas que enquanto se formavam como pessoas, não tiveram uma boa base familiar”, declara.
O caso de Guilherme Silva Xavier foi um pouco mais grave, quando um segurança de um banco localizado no centro de Cotia o impediu de entrar na instituição para realizar seu trabalho como motoboy.
“Quando tentei entrar no banco para pagar algumas contas, o alarme da porta giratório disparou e travou. O segurança me pediu para tirar todas as coisas da mochila e ainda assim a porta continuou bloqueada. Estava sem metal algum em minhas roupas e o segurança não quis me deixar entrar. Fiquei tão furioso que tirei a calça e fiquei apenas com a cueca. Depois disso ele resolveu destravar a porta”, afirma Guilherme.
De acordo com o motoboy, ele não prestou queixa sobre esta situação, pois acha a justiça muito conivente e até mesmo burocrática.
“Certa vez fui a delegacia da Granja Viana apenas para adquirir uma certidão negativa de antecedentes criminais, porque o empregador não aceitava a que eu havia conseguido pela internet e demorei mais de uma hora e meia para conseguir. Imagina o quanto eu teria de esperar para relatar um crime desses”, declara o motoboy.
Tentamos entrar em contato com Mario Guilherme Filho, delegado Titular da Delegacia de Polícia da Granja Viana, para falar sobre casos de injuria racial tipificada no artigo 140, § 3º do Código Penal Brasileiro, que consiste em ofender a honra de alguém com a utilização de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião ou origem, mas não fomos atendidos.
Já o comandante Albuquerque da Guarda Civil de Cotia declarou que a última vezes que atendeu a um chamado desta natureza foi no ano de 2003, quando foi acionado por um cidadão que havia sofrido preconceito racial.
De acordo com Ricardo Secomandi, secretário de Segurança Pública de Cotia, desde quando o Serviço de Inteligência da pasta começou a tabular os dados de ações criminais no município, no início de 2012, ainda não há ocorrências referentes a injuria racial.










