Dois projetos distintos de grande visibilidade usam
contêineres como estrutura para moradia
por Solange Viana
Sustentabilidade é a palavra do momento. Muito em voga hoje em dia, pois quem a pratica, além de estar de acordo com o meio ambiente, gera economia. Em se tratando de uma construção, é uma das maiores preocupações para quem pensa em deixar um mundo melhor para os netos. Tanto em economia de material como em praticidade e otimização de uma obra. Uma casa comum de alvenaria consome um
ano, ou mais, para ser construída, enquanto a casa-contêiner leva cerca de sete meses para fi car pronta, tudo visando à sustentabilidade. É a onda Green Building. Tudo para minimizar o impacto ambiental.
A REVISTA CIRCUITO visitou dois projetos distintos que utilizam contêineres como estrutura, a base para construir uma residência ou outros espaços alternativos. O primeiro projeto é uma casa-contêiner onde, em breve, a família do arquiteto Danilo Corbas vai morar. É uma casa completamente pensada e estudada, que está localizada na Granja Viana. Este projeto contém tudo o que uma residência comum necessita: sala espaçosa e ensolarada, três suítes, sendo uma de hóspedes, escritório, cozinha integrada. São 196 metros quadrados de área construída em quatro contêineres.
O segundo projeto está em exposição na Casa Cor 2011 (que acontece até 12 de julho no Jockey Club, e depois circula por alguns estados) e é da arquiteta Brunete Fraccaroli. Um bar com sala lounge anexa. Um luxo. Neste projeto a arquiteta utilizou sete módulos de contêineres e construiu uma cozinha e um banheiro. Com muito azul e um pouco de verde-claro. São 300 metros quadrados de área construída. Veja abaixo como foi elaborado cada um deles.

CASA-CONTÊINER NA GRANJA VIANA
Arquitetura de Danilo Corbas, 42 anos.
Ao visitar a casa-contêiner de Danilo, a impressão que se tem é que ali é um “forno”, que em breve iremos derreter em pleno outono na Granja Viana, quando as temperaturas, nos fins de tarde, são bem frescas. Aos poucos, a impressão vai mudando e nos confortamos dentro do espaço.
Localizada em um terreno de 860 metros quadrados, em condomínio residencial aqui na Granja, a casa-contêiner tem 196 metros quadrados de área construída, distribuída em dois pavimentos. São três quartos, sala de estar, sala de jantar e cozinha gourmet integradas, escritório, três banheiros, área de serviço, garagem e varandas.
A ideia é do arquiteto Danilo Corbas, que projetou a casa-contêiner para ser sua moradia. Corbas utilizou tecnologias e produtos sustentáveis, disponíveis no mercado brasileiro, para que o projeto superasse primeiramente os desafios técnicos inerentes a esse tipo de construção verde, aliando efi ciência ecológica e confortabilidade, numa clara demonstração de que sustentabilidade, design e qualidade de vida podem conviver harmoniosamente na construção civil, contribuindo para minimizar seu impacto ambiental.
RC: Quando começou o projeto da casa-contêiner? Quanto tempo levou para chegar até aqui?
Faz dois anos e sete meses que tudo começou, dois pesquisando e sete na construção. Larguei outros projetos para me dedicar a este. Ter espaços mínimos com estética industrial. Foi quando encontrei alguns projetos de casas feitas com contêineres fora do Brasil. O interesse foi imediato, e um segundo diferencial logo se destacou: a sustentabilidade. Os contêineres são feitos de material nobre, o aço corten. Foi quando percebi que, reutilizando os contentores de aço como estrutura, deixaria de usar grandes quantidades de recursos naturais, como areia, água, cimento e tijolos ou blocos. Posso dizer que a ideia de reutilizar contêineres para a construção de uma casa foi meu caminho para descobrir a sustentabilidade na construção civil.
E como surgiu essa ideia?
Meu trabalho como arquiteto é voltado para a estética industrial. Sempre quis trabalhar com construção sustentável. Meu sogro trabalhava para a Petrobras e, quando ele fi cava em alojamentos, era em contêineres. A ideia surgiu daí. Meus sogros moram em um catamarã, então sempre pensei em espaços funcionais. E os contêineres apresentam muitas vantagens.
RC: Foi fácil? Como conseguiu os contêineres? Quanto custaram?
Fiz muita pesquisa até chegar a este formato. Visitei vários. São estruturas marítimas em desuso. Comprei em São Vicente, no litoral sul. Paguei 5 mil reais cada um (quatro foram usados na construção). Não é fácil encontrar bons contêineres, pois ficam amassados, etc.
RC: E quanto medem?
Comprei os maiores que existem no mercado. Os de 40 pés. Cada um mede 12,20 metros de comprimento. E são altos.
“E esse projeto me consumiu muito, emagreci 10 quilos, tornou-se a minha obsessão.”
RC: Vi que você os trouxe já cortados, ou seja, com as janelas e portas recortadas…
Isso mesmo. Lá existem soldadores que cortam. Oficinas de recuperação. Projetei tudo antes da compra para otimizar o projeto. Assim, quando chegou ao terreno, pude otimizar também o uso do guindaste.
RC: E quanto economizou, comparando com uma construção normal? Qual foi o gasto total?
Cerca de 30% a menos em relação a uma construção de alvenaria. Pode chegar a 35% de economia. É que não tenho como calcular algumas coisas, pois ganhei, tive parceiros, patrocinadores.
RC: Esta será a sua casa. Neste dias que tem vivido por aqui já teve de ajustar alguma coisa?
Tenho ficado muito aqui. Sim, tenho de fazer alguns ajustes, pois apareceram goteiras, e estou solucionando o problema. Tem chovido muito por aqui.
RC: E como foi a busca por patrocinadores? Percebo que você está muito bem assessorado…
No começo não foi fácil. E esse projeto me consumiu muito, emagreci 10 quilos, tornou-se a minha obsessão. Quando percebi o que tinha em mãos, comecei a buscar parceiros. Mas as pessoas só passaram a acreditar depois que viram tudo formatado, pronto. Aí acreditaram que o que eu estava falando era sério. Após contato com diversas empresas brasileiras da construção civil, vi que existem materiais no mercado que podem transformar a construção nacional em uma prática mais sustentável. Há muitos produtos disponíveis e também uma demanda reprimida. O trabalho das indústrias, a partir de agora, é de se comunicar de maneira clara e honesta com os especificadores e o consumidor final. O Projeto Casa-Contêiner, nesse sentido, reúne indú
strias engajadas no conceito de sustentabilidade na construção de forma geral, aqui não existe um apoiador que não tenha essa preocupação.
RC: Qual foi sua maior dificuldade?
A mão de obra especializada. O Brasil vive um boom na construção civil, que, por sinal, é a que mais produz lixo. Os melhores estão ocupados, com muito trabalho. Sobra pouca mão de obra especializada.
RC: Por falar em lixo, você também teve pouco na sua construção, certo?
Isso mesmo. Usamos somente duas caçambas (para retirar entulhos das obras). Normalmente, são utilizadas 30 caçambas em uma obra corriqueira. Na verdade, ainda nem completei a segunda.
CASA-CONTÊINER NA CASA COR 2011
Arquitetura de Brunete Fraccaroli
Ao entrar no projeto da badalada arquiteta Brunete Fraccaroli, o visitante quase não percebe que está dentro de um contêiner. As paredes são forradas e o chão, de pastilhas azuis, dá o tom da empreitada. Você só percebe que está em um contêiner porque viu seu exterior. A arquiteta articula os contêineres de sucata criando um caminho pelo qual os visitantes podem circular nas áreas interna e externa, experimentando sensações. Na estrutura central, o espaço de convívio reúne os três espaços principais, interligados por uma cobertura de vidro sustentável que dá origem a uma varanda iluminada.
No maior contêiner, de 12 metros de comprimento, um bar multiuso com uma grande bancada espelhada. Ligado ao módulo principal, outro contêiner recebe um lounge com papel de parede azul. Outro espaço bem interessante é o que faz referência a Alice no País das Maravilhas e contém um tabuleiro de xadrez gigante: espelhos refletem as imagens e peças gigantes que “saem” do tabuleiro azul e branco.
O contêiner-cozinha conta com piso de pastilhas em tons de azul. As paredes são revestidas com dégradés que vão do azul ao verde, fazendo com que o visitante não se sinta dentro de um contêiner.
Este projeto ganhou o Prêmio de Mais Sustentável da Casa Cor 2011. (SV)
Abaixo, uma conversa via e-mail com Brunete Fraccaroli.
RC: Como você teve esta ideia? De onde surgiu?
Este ano, eu quis montar um espaço multiuso onde fosse possível transportar, multiplicar, juntar ambientes e sensações dentro da sustentabilidade. A construção de ambientes utilizando contêineres é uma grande tendência no mundo todo. A escolha por este material acabou sendo natural. Foi possível reaproveitar um material que seria descartado e não pôde ter seu metal reciclado e ainda diminuir os resíduos da obra.
RC: Quanto tempo levou sua pesquisa?
A pesquisa inicial durou duas semanas. Depois de decidida a concepção do projeto, levamos um mês para montar o espaço.
RC: Qual foi sua maior dificuldade?
Um desafio foi montar o conjunto, pois, ao interligar contêineres, precisamos realizar cortes sem prejudicar a estrutura e garantir a sustentabilidade do projeto. Outro fator que dificultou a execução do projeto foi
conciliar os horários de transporte dos contêineres com os horários da Casa Cor, uma vez que o material veio de Santos.
RC: Onde conseguiu os contêineres?
Consegui com uma empresa transportadora. Estes contêineres eram utilizados para o transporte de cargas e seriam desativados, pois já não serviam para esta função.
RC: Acha possível morar nele?
Este projeto é conceitual, mostra que é possível montar casas perfeitamente habitáveis com contêineres. Este espaço não tem dormitório nem sala de jantar, mas, para ser possível morar nele, só é necessário acoplar mais contêineres e montar os ambientes. Todas as soluções que adotei tornam o ambiente agradável para convivência.
Outras fontes ouvidas na matéria: Claudio Leozzi, consultor em Eficiência Energética e Sustentabilidade, e o arquiteto Ovídio Rotger Armelin.













