Por Anita Falcão Arteiro
Diariamente, centenas de cães e gatos são abandonadas pelas ruas do país, comprometendo a qualidade de vida desses animais e a saúde da população. Muitas cidades não têm sequer abrigo para seres humanos, para animais então… O governo está bastante atrasado em relação às políticas de proteção animal.
Diante da situação desastrosa, principalmente no sentido humanitário, cidadãos criam entidades protetoras. Acabam recolhendo e tratando os animais abandonados que, traumatizados e estressados, costumam desenvolver estados de agressividade ou depressão, o que dificulta o convívio social.
Em países preocupados com o bem-estar da comunidade, como a Inglaterra, os animais encontrados nas ruas são encaminhados a centros de reabilitação, onde existem programas que lhes recuperam a confiança e a autoestima. Esses pets também são educados para uma rotina doméstica, e só depois de tratados e treinados é que podem ser adotados. Essas medidas evitam que os animais resgatados sejam novamente abandonados pela inabilidade dos novos donos em lidar com um animal doente física e psicologicamente.
Em muitas regiões brasileiras não existem nem mesmo Centros de Controle de Zoonoses (CCZ). Devido a esse quadro crítico, o que podemos fazer de mais eficaz é conscientizar a população a respeito da posse responsável de animais, que, na verdade, vai além de cuidar da saúde e do bem-estar de seu próprio pet.
A comunidade deve perceber que é responsável pela criação, comercialização e educação dos animais. Cabe a nós prepará-los para o convívio em sociedade. Se aceitamos que esses animais vivam nas ruas, aceitamos que vivam como caçadores dentro de matilhas. É necessário cobrar atitudes responsáveis de criadores e proprietários.
O governo de São Paulo tenta, por meio de sua legislação, contribuir para a interação saudável entre humanos e animais. Hoje é obrigatório o uso de coleira, guia curta e enforcador para que cães de temperamento agressivo circulem em locais públicos. Se esses locais forem fechados, são ainda exigidas focinheiras. Esta iniciativa visa eliminar acidentes muitas vezes fatais envolvendo pessoas e cães.
Vale lembrar que a lei inibe e pune, mas só a conscientização modifica as atitudes de uma sociedade. Apoiar campanhas de adoção e controle de natalidade é uma postura fundamental para modificar a triste realidade dos animais abandonados. Neste sentido, existe uma polêmica que há alguns anos reacende discussões em relação a nossa responsabilidade sobre a qualidade de vida dos pets: o cruzamento entre raças diferentes para atender à demanda da moda em países como EUA, Austrália, Canadá e Inglaterra.
Este processo, chamado hibridação, é resultado do cruzamento entre duas raças diferentes, que dá origem a um novo indivíduo denominado híbrido. Na evolução dos seres vivos, a hibridação tem um papel importante, já que muitas raças consideradas puras podem ser resultado de cruzamento entre animais diferentes que não existem mais.

Por meio da seleção artificial, criadores procuram aperfeiçoar determinadas raças. Apenas indivíduos fortes ou com características que desejam ressaltar é que são cruzados entre si. Daí surgem os tão conhecidos animais com pedigree (certificado de pureza de uma raça cuja linhagem inteira é conhecida).
Não existe garantia quanto ao temperamento de um animal, no entanto, as raças puras adquiriram, com o passar de inúmeras gerações, características fixas. Já as raças híbridas são incógnitas, tanto no comportamento quanto na aparência, pois, nas primeiras ninhadas, a beleza, o porte e o temperamento não estão definidos. Essas características não se definem numa única geração, por isso são muitas vezes chamados de vira-latas de luxo.
Mas seus criadores não gostam da nomeação popular para suas “criações”. Em geral, estão focados na espécie canina e são elegantemente chamados de designer de cães. O primeiro deles foi Wally Cochran, que na década de 1980 tinha como meta criar para a Associação de Cães-Guias de Melbourne, Austrália, um cão hipoalergênico. Cochran utilizou o labrador, conhecido pelo temperamento leal e obediente, e o poodle, famoso por não provocar alergia nas pessoas, já que não troca a pelagem com frequência e não tem subpelo, ou seja, tem apenas uma camada de pelos. Por esse fator, inclui-se o poodle na maioria dos cruzamentos.
Daí surgiu o labradoodle, cão de porte grande, pelagem fofa e temperamento dócil. É a raça híbrida mais famosa dentre as mais de 400 ao redor do mundo. Segundo o Clube de Cães Híbridos Americano, este número já ultrapassa a quantidade de raças puras registradas pela Federação Cinológica Internacional. A FCI não considera os cães design como raças, e zela pela pureza das linhagens. Centraliza associações de criadores de cães de diversos países. Entre elas está a Confederação Brasileira de Cinofilia (CBKC), que segue critérios rigorosos para admitir uma nova raça. É preciso, por exemplo, comprovar a existência de oito gerações e, no mínimo, oito linhagens diferentes (para evitar o cruzamento consanguíneo).
Os defensores da tendência argumentam que o cruzamento entre raças diferentes diminui a chance do aparecimento de doenças hereditárias. A isso se dá o nome de “vigor híbrido”. Quanto maior a diferença genética, maior o vigor híbrido. Um puggle, filho de pug e beagle, terá maior vigor híbrido que um filhote de dois puggles, por exemplo.
Já os cruzamentos consanguíneos reduzem a diversidade genética e abrem espaço para a manifestação de genes recessivos, onde está a maioria das doenças e síndromes. Estima-se que 25% dos animais com pedigree possuam alguma doença genética. Por isso, também, cão “puro” não significa cão saudável.
Para entender melhor: se um exemplar líder em campeonatos de raça, aparentemente saudável e com características valorizadas, possuir um gene indesejado não manifestado, com o cruzamento esse gene será espalhado e os problemas provavelmente aparecerão nas ninhadas seguintes. O quadro será ainda mais grave se houver cruzamento entre os exemplares subsequentes.
Os designers de cães têm a expectativa de assegurar as melhores qualidades de duas raças em um único exemplar. Se, por exemplo, um cliente adora a raça golden, mas mora em um apartamento pequeno, o design realiza o cruzamento de golden retrievier com poodle toy, o que resulta no goldendoodle.
A questão é que não há garantia nenhuma de que o filhote herdará as características desejadas. Pode acontecer exatamente o oposto. E aí? O que vai acontecer com esse pet?
Em países com políticas de proteção animal avançadas pode-se dizer que suas vidas estão resguardadas. Mas o que acontecerá em p
aíses como o Brasil? Serão descartados nas ruas?
Por aqui o cruzamento entre raças distintas já acontece há muito tempo, mas de forma acidental. Não temos designer de cães, tampouco regras e normas que fiscalizem os criadores com relação a esse aspecto. Na grande maioria das vezes, quando surge alguma ninhada inesperada, fruto de cães com pedigree, mas não da mesma raça, estes animais são doados. Não raro, passados adiante a pessoas que os acham lindos quando filhotes, mas que não refletem sobre o fato de que os cães crescem. Quando isto acontece, largam os animais na rua, em geral, bem distantes de suas casas para que não achem o caminho de volta.
Vivemos numa sociedade imediatista, que descarta modismos ultrapassados. Seria esta tendência mundial mais um momento passageiro ou realmente uma nova linha de criadores que pretende se solidificar?
Em geral, os cães híbridos custam mais caro que os filhotes de raça pura. Em território americano, a mistura de labrador com poodle chega a custar 2.500 dólares. A Associação Australiana de Labradoodle está empenhada para que seja reconhecida a nova raça e já exporta filhotes para Tasmânia, Nova Zelândia, Finlândia, Noruega, Argentina, EUA e Holanda.
Em muitos países já existem criadouros especializados em raças híbridas e inúmeros sites de vendas de seus filhotes pela internet. Nos EUA é “legal” ter um labradoodle. Até mesmo as filhas do presidente americano, Barack Obama, ficaram na dúvida entre adotar um labradoodle ou um cão de água. O novo morador da Casa Branca seria procurado em abrigos para cães, mas a família Obama acabou sendo presenteada com um exemplar de cão de água português, ao qual deram o nome de Bo, em abril de 2009.
Sobre este aspecto, acredito ser inútil lutar contra as evoluções científicas na área da genética, até mesmo por perceber, a cada estudo, que a hibridação sempre fez parte da natureza. Neste caso, de maneira simplista e prática: cães não distinguem raças, e sim espécies.
Cabe à sociedade estabelecer os limites éticos para as intervenções humanas. A reflexão é o primeiro passo para uma postura social consciente. Discutir o assunto, observar pesquisas, a realidade particular das comunidades e as alternativas criadas por seus cidadãos para solucionar as deficiências (muitas dessas iniciativas de sucesso podem ser aplicadas em outras regiões). Cobrar ações dos órgãos competentes, fazer a nossa parte no dia a dia ao cooperar com o que estiver ao nosso alcance para um mundo mais justo. Analisar o que é, de fato, contribuir para a evolução e o que é criar uma cilada para a própria humanidade, pois fatalmente seremos vítimas de condutas inconsequentes.













