Rogério Farah Escamilla mora na Granja há dez anos, mas tem passado muito tempo em Itu (interior de São Paulo). Melhor dizendo, está praticamente isolado em uma fazenda localizada a 40 minutos do centro de Itu. Explico: ele é um dos diretores do reality show A Fazenda (Record), que acaba de estrear, sucesso absoluto na emissora e já na 4ª edição. Em princípio, ele nem poderia conversar com a imprensa. Foi uma verdadeira negociação nossa entrevista. Durou vários dias, muitos telefonemas, torpedos e troca de e-mails. Um sufoco! Mas Farah foi prestativo e paciente, respondendo a tudo em meio ao turbilhão da estreia do programa.
O jovem diretor de televisão não começou agora. Sua carreira teve início com programas educativos. Fez o Castelo Rá-Tim-Bum, na TV Cultura, e participou do primeiro programa do gênero no SBT, Casa dos Artistas (2000), bem parecido com A Fazenda, pois em ambos os concorrentes são famosos e ficam confinados e vigiados 24 horas por dia. Na Casa foi onde conheceu o diretor-geral do atual programa, Rodrigo Carelli, amizade que lhe rendeu trabalharem juntos nos quatro episódios de A Fazenda. A receita deu certo. Tão certo que em edições anteriores chegou a obter a liderança de audiência, com 19 pontos no Ibope*, deixando a líder – Rede Globo – em terceiro lugar em alguns momentos.
Casado com Gislane Hasson, a Gi, há 15 anos, tem duas filhas – Clara, 14, e Luana, 7. Atencioso, mesmo na correria da estreia de A Fazenda, Farah liga para a esposa e fala sempre com as filhas. Confessa que estar longe de casa é o maior desgaste do seu trabalho na televisão, mas que, quando chega, compensa da melhor forma possível. “Após a estreia tudo fica mais tranquilo. Fazemos um esquema de folgas e, assim, consigo ficar mais com a minha família”, conta Farah em uma das inúmeras conversas que tivemos. Abaixo, um pouco da história deste diretor.

Você fez ECA/USP, onde estudou Rádio e Televisão. Mudou muito de lá para cá? Tudo está acontecendo como o esperado ou você nem imaginava aonde tudo iria dar?
Fiz ECA, de 1991 a 1995. Cursei o colegial técnico e descobri que não queria seguir um curso de exatas. Ao entrar na ECA, fui conhecendo sobre TV e, depois da faculdade, entrei para o mercado. Durante a faculdade, entrei para a TV Cultura, na época em que os programas infantis estavam no auge: Castelo Rá-Tim-Bum.
Seu primeiro reality show foi Casa dos Artistas, certo? Usa algum aprendizado no programa atual, pois são bem diferentes…
Casa dos Artistas foi o primeiro reality que fiz. Antes, dirigi programas educativos: Telecurso 2000, Vila Esperança (um infantil da Record). Casa dos Artistas tem uma dinâmica parecida com A Fazenda, são famosos confinados e vigiados por câmeras 24 horas por dia. Eles são muito diferentes na aparência, mas têm a mesma essência. Foi em Casa dos Artistas que conheci o Rodrigo Carelli (diretor-geral de A Fazenda) e a Chica Barros (diretora, como eu, de A Fazenda). A experiência de ter feito Casa foi fundamental para formatar A Fazenda. Casa dos Artistas era um programa tão guardado a sete chaves que antes de eu começar a trabalhar no projeto fiz uma série de reuniões secretas. Eu encontrava o Rodrigo em um shopping (nós não nos conhecíamos) e ele me dizia, aos poucos, o que era o programa. Eu achava tudo muito esquisito… A gente ia conversando, mas nunca se falava diretamente sobre o que, de fato, era o programa. Até o dia em acertamos tudo para iniciar o trabalho. Pensei: “Ufa, agora acabou esse mistério”. No primeiro dia que fui à Casa, soube que tinha de deixar o carro em um estacionamento e seguir numa van até o lugar onde gravávamos o programa, uma casa no Morumbi, ao lado da casa em que morava Silvio Santos.
O segredo valeu a pena. Tantos cuidados fizeram o programa ser uma grande surpresa e se tornar um sucesso.
A equipe de produção e alguns dos 12 artistas participantes da Casas dos Artistas. No detalhe Rogério Farah
Qual foi a grande inovação desta temporada? Você falou qu e mudou todo o sistema de captação de imagem. Tudo agora é em alta definição. Posso considerar isso como a maior inovação da nova temporada? Existem outras?
Como inovação técnica, ser em HD é a grande novidade. Mas, a cada A Fazenda, tem novas provas, regras etc. Tudo para surpreender os participantes e tornar o jogo cada vez mais interessante. O que deve ser considerado é que é o primeiro reality show no Brasil em HD, alta definição, o que muda tudo, pois precisamos ter o máximo de cuidado com cenários, enquadramentos, acabamentos. Tivemos de readequar tudo. A gente precisa criar surpresas sempre, pois é um programa que não para.
Você participa do processo de seleção? Qual é, exatamente, sua participação em A Fazenda? Como você se divide com os demais diretores? Quantos são além de você?
A estrutura de direção de A Fazenda é assim: Rodrigo Carelli é o diretorgeral, eu e a Chica Barros somos os diretores. A Chica está grávida e em licença, no lugar dela está o Mauro Troiano.
E como funciona?
Fazemos reunião de pauta diariamente. Definimos o conteúdo, as provas. É uma grande corrida de bastão.
Qual o maior desafio de produzir um reality show como A Fazenda? Percebo que estar longe de casa é uma das maiores dificuldades, como lida com isso?
Um dos maiores desafios é mesmo estar longe de casa. Termina o dia e dá vontade de voltar. Digo que minha esposa é uma grande parceira. A participação dela é necessária, pois é ela quem cuida de tudo quando não estou. E, muitas vezes, só chego e falo “oi”, pois estou sempre com um passo atrás. Quem sabe do cotidiano das crianças é ela. Tem de ser muito compreensiva para tolerar este tipo de trabalho. E a estreia é um dos picos, depois sempre surgem imprevistos, mas fica mais fácil de administrar.
O que faz nas horas vagas, quando não está confinado? Como é sua rotina em A Fazenda?
Sou muito sedentário. Então aproveito quando estou em Itu para fazer ginástica, pilates, correr. Acordo cedo todos os dias, entre 6h30 e 7 horas, pois levo as meninas à escola quando estou em São Paulo, então estou acostumado. Tem uma academia ao lado do hotel. Faço aqui o que não consigo fazer na Granja por falta de tempo.

Acha que teremos mais edições de A Fazenda ou este tipo de programa está desgastado?
Acho que faremos muitas edições ainda. É um sucesso. Ainda teremos A Fazenda 5, 6, 7…
O programa já estreiou. Como está a expectativa agora?
A Fazenda não possui um roteiro, e as histórias começam a acontecer. Os participantes estão se conhecendo e iniciando suas táticas para jogar.
Como diretor de TV, como é trabalhar sem um roteiro?
É um trabalho inverso. Em A Fazenda ficamos esperando as coisas acontecerem para ver o que teremos em mãos. Também é uma surpresa para todos nós, pois não sabemos o que vai rolar naquele dia. Costumo dizer: Se você pegasse um dia seu, o que separaria para virar um programa de 20 minutos? Essa é a nossa função.
Já dá para arriscar algum palpite sobre quem vai “causar” ou se destacar?
Somos imparciais, não podemos privilegiar ninguém, todos têm o mesmo direito e ferramentas para conquistar o prêmio, que é uma boa grana. Mas claro que depende totalmente do desempenho de cada um, do limite que o participante quer alcançar expondo sua imagem.
Com sua experiência em reality shows, já houve algum imprevisto ou algo que fugiu dos planos?
Nunca tivemos problema. A regra é que não pode haver agressão física dentro de A Fazenda. Os integrantes podem gritar um na cara do outro, mas sem bater. Mas acho que o Theo Becker foi o participante que mais nos causou tensão.

Rogério Farah Escamilla é um dos diretores do reality show A Fazenda, programa líder de audiência na Record e que chega a incomodar a Globo em muitos momentos.
E quando o participante sai do confinamento do programa, o que costuma dizer?
Geralmente todos dizem que não são daquele jeito, que estavam apenas jogando. Falam que a edição do programa faz tudo parecer de uma forma equivocada. Será?
Quanto tempo mora na Granja? Por que escolheu a Granja para morar?
Há dez anos moro na Granja Viana. Antes, morávamos em Pinheiros. Escolhemos aqui por ser um lugar em que poderíamos criar as crianças com espaço. A irmã da Gi mora na Granja, e sugeriu que procurássemos algo pelo bairro. A primeira casa que vimos foi a que escolhemos. Até visitamos outras, mas ficamos com a primeira opção.
O que mais gosta na região?
Gosto dos cafés. Sou viciado em café, então o que mais faço é procurar um bom lugar para isso. Costumo visitar restaurantes, mas não tenho nenhum preferido. Na verdade, o que mais gosto é de chegar à Granja. Adoro quando chego, pois se não estou em Itu, estou na Barra Funda, onde fica a Record. Por sinal, demoro mais para chegar a São Paulo do que a Itu. Da fazenda até a Granja levo 50 minutos. Às vezes, demoro duas horas para chegar a algum lugar em São Paulo.
E o que não gosta?
Incomoda-me muito não ter calçada! As calçadas são precárias e, com o aumento do número de carros, andar a pé no centrinho fica difícil. Mesmo na Av. São Camilo uma ida da fazendinha à mercearia vira uma aventura, um sobe e desce entre rua e calçada.
Como conheceu a Gi, sua esposa?
Foi um amigo em comum quem nos apresentou. Havia acabado de voltar do Chile e ela estava recém-separada. Começamos saindo juntos entre amigos. Em pouco tempo, ficamos juntos. Viajamos para Cuba. Quando voltamos, ela estava grávida. Foi muito rápido. Completamos 15 anos de casados agora em julho.
Você tem duas filhas, Clara e Luana, acha que elas seguirão a carreira do pai? Você gostaria que isso acontecesse?
Ainda é muito cedo para saber. A Clara gosta muito de música. Toca instrumentos. Estuda. É ela quem me traz as novidades. Ela é minha antena! Acho difícil elas entrarem para a televisão, mas, se acontecer, sem problemas.
Sei que, além de trabalhar na Record, você possui uma
produtora…
Isso é uma coisa importante. Eu e meu irmão temos uma produtora na qual produzimos diversos trabalhos na área de música erudita, ópera e exposições. A produtora chama-se Escamilla Soluções Culturais. Produzimos vários eventos e projetos grandes para o Sesc, Usiminas, Natura, CCBB…
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A Fazenda (Record) é a versão brasileira do programa The Farm, sucesso em 40 países e que chega transformado em uma superprodução de mais de 30 milhões de reais na tela da Record. Em sua quarta edição, tem duração de três meses, e o vencedor leva 2 milhões de reais para casa.
Na estreia do programa, no último 19 de julho, apresentado por Brito Jr. e Chris Couto, deu para notar o que vem por aí, pois a mistura é bem diversificada: modelos, atrizes, cantores, ex-jogador de futebol, tem até paraquedista, sem contar a presença de Raquel Pacheco, mais conhecida como Bruna Surfistinha, o que deve apimentar a temporada.
Para a realização de A Fazenda, uma propriedade de mais de 150 mil metros quadrados em Itu, no interior de São Paulo, foi especialmente preparada, com a instalação de câmeras de última geração, torres de luz, microfones e toda a infraestrutura necessária para mais uma temporada. (SV)
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A filmografia de Rogério Farah Escamilla
Direção dos curtas
• C.A.F.É.
• Adeus Japão
• O Príncipe de Asas
• Sou Outra
• Projetos patrocinados pelo Centro Cultural do Banco do Brasil – SP
Direção de programas ao vivo e shows
• Nação Zumbi – show gravado para Sesc TV 2008
• Miss Brasil 2008 – transmitido ao vivo pela Band 2008
• Camarote da Brahma – transmitido ao vivo pela Band 2007
Direção de séries e programas para TV
• A Fazenda – Reality show – TV Record 2009/2011
• Enquanto Você Não Vem – People&Arts – Discovery 2008 e 2005
• Aeromagazine – série especializada em aviação – Rede TV 2006
• Etanol, Novas Fontes de Energia – Discovery 2005
• DIC – Dia Internacional da Criança – TV Cultura 2004/2005
• Esporte Consciente – 12 programas de esporte – Canal Futura 2004
• Parcerias de Sucesso – 13 programas para o Canal Futura 2004
• Bom Dia & Cia. – programa infantil do SBT 2002/2003
• Casa dos Artistas – Reality show (três primeiras edições) – SBT 2001/2002
• Vila Esperança – programa infantil TV Record 1998
• Telecurso 2000 – Rede Globo/TV Cultura 1995/1996
Programas educativos, comerciais e institucionais
• Mais Brasil para Mais Brasileiros – 4 comerciais para Secom/PRP 2008
• 60 Anos do Grupo Pão de Açúcar – institucional 2008
• TAM Magazine – programa de bordo da TAM 2006 /2007
• Documenta Brasil – documentários para Secom – Governo Federal 2005
• Formação de Professores Alfabetizadores – série para TV Escola 2000/2001
• Mini Teatro Ecológico – Giramundo Teatro de Bonecos 2004
*Ibope – órgão regulador de audiência dos programas televisivos.













