ESPECIAL EDUCAÇÃO
A mídia chamou a atenção da população para algumas distorções relevantes sobre os critérios na composição da nota final do Enem. Apresentou como vilão o peso exagerado da nota de redação em relação ao de outras áreas do conhecimento, e os jornais cuidaram de lembrar a seus leitores alguns vexames que implicaram a credibilidade do exame. “Criado para avaliar os alunos do Ensino Médio, o Enem se consolida como a principal porta de entrada para o Ensino Superior no Brasil” − Guia do Estudante 2011.
Você, leitor aluno, precisa mesmo participar dessa avaliação, mesmo que seus critérios sejam ainda palco de discussões e contrapontos. É uma classificação à qual você deve se submeter, e não se excluir. Hoje, ainda não dá para fugir do óbvio: O Enem é uma medida de conhecimento que tutela o ingresso a algumas universidades, por isso, convém participar.
Você, leitor pai ou mãe, precisa analisar o aproveitamento particular do aluno participante. O Exame Nacional do Ensino Médio não divulga o resultado individual, não apresenta uma escala de aproveitamento por aluno, mas publica um ranking das escolas, o que dificulta reconhecer os indicadores da nota per capita.
Lamentavelmente, essa política não tem como princípio a evolução acadêmica do aluno, e sim o sistema.
É um direito dos pais conferir o desempenho dos filhos e, sobretudo, a qualidade do ensino da escola que frequentam, mas, infelizmente, o objeto de análise acaba sendo apenas o ranking das melhores escolas. É impossível avaliar uma instituição de ensino levando em conta apenas uma nota. A maior angústia dos gestores e educadores em relação aos resultados do Enem é que ele confisca importantes informações sobre o processo e, por isso, acaba impondo critérios que, resumidos em tabelas, relativizam o processo e toda a concepção do trabalho educacional.
O estudante tem de ficar atento, preparar-se para o desafio, inscrever-se no exame e utilizar seu resultado (a nota) em seu benefício.
Já ao Enem cabe a responsabilidade de se comprometer em criar mecanismos de divulgação que revelem exatamente seu principal objetivo. As universidades têm de organizar as datas de seus vestibulares de maneira compatível com o calendário oficial do Enem, viabilizando a participação do aluno nas avaliações.
A sociedade tem de receber os resultados de maneira clara e absoluta, evitando, assim, o desconforto de desacreditar na escola de seu filho. As escolas têm de se posicionar de maneira democrática, e não excludente, no que diz respeito à participação de seus alunos. O incentivo deve ser para todos, porque, para alguns, o resultado será a porta de entrada para a universidade, e para outros poderá ser apenas mais um importante aprendizado.
Mariza Cavinato
Professora universitária, pós-graduada em Psicopedagogia, especialista em Gestão de Escola com ênfase em Recursos Humanos e Negócios. Atualmente exerce a função de diretora de escola. marizacavinato@gmail.com
BULLYING: Mitos e Verdades
Em agosto, o psicólogo, psicanalista e professor universitário Alessandro Marimpietri palestrou, a convite, a pais e alunos do Colégio Sidarta acerca do bullying. O termo tem sido muito usado nos últimos tempos, mas será que todos sabem o que realmente significa? Quais são os mitos e as verdades acerca do tema? Aproveitamos a ocasião para descobrir o que realmente é o bullying, por que tem maior ocorrência em escolas, quais as responsabilidades da atual educação nesse ato e muito mais.
O que realmente é o bullying?
O termo bullying vem da língua inglesa para designar intimidação, ameaça, bem como situações de violência moral e física. Efetivamente, esse termo serve, na atualidade, para referendar uma prática, infelizmente, comum de violência, de intolerância, especialmente entre jovens e crianças escolarizadas. No entanto, é preciso que se diga que tal termo tem sido mal empregado, uma vez que se criou uma nova patologia do infantil, que, ao ser assim designada, comete dois grandes equívocos: tornar todo e qualquer enfrentamento entre os alunos situações de bullying, ou termina por “desresponsabilizar” os partícipes indiretos dos atos de intolerância e violência.
Qual o perfil dos que sofrem ou promovem esta ação?
Falar em perfil é um tanto complicado. Não há como dizer que existam traços marcantes de características pessoais que possam levar sujeitos a cometer atos de bullying, à exceção de um: muitos dos agressores, de acordo com o que mostram as pesquisas, já foram, de alguma maneira, agredidos. O bullying se sustenta num ciclo de agressões, tolerância ao intolerável, intolerâncias às diferenças e que geralmente se vê encoberto por silêncio e negligência dos adultos que estão em volta. O que deveríamos salientar, nesses casos, é uma parte submersa e pouco discutida, em minha opinião. Nossos filhos convivem com baixos limiares de frustração, são convocados por nossa cultura a valorizar muito mais a liberdade individual do que os pactos de convivência coletivos e são excessivamente autocentrados. Por outro lado, nosso laço social preconiza uma espetacularização das práticas sociais, um desvalor ao diálogo e promove pouca autonomia aos pequenos, conjugando uma excessiva tutela à hiperpermissividade.
Por que esse fenômeno tem maior ocorrência em escolas?
É na escola que os garotos passam a maior parte do tempo, é lá que há um certo ensaio da vida adulta, do que é conviver em sociedade, portanto, é lá também que as tensões inerentes a essa vivência vão aparecer. Eu costumo dizer que toda escola é um espaço do público, lá há uma espécie de metáfora do projeto civilizador de fazer pactos, acordos para existirmos enquanto sociedade. Imaginem que numa escola há centenas de famílias, crenças, valores representados pelos alunos, e que nesse espaço eles precisam aprender a ser e a conviver regidos por uma lei única, que é a institucional. Nos dias de hoje, especialmente, isso joga um papel central na formação dos pequenos.
Que tipos de dano as pessoas que passaram por essa situação podem ter?
Os danos pessoais já foram estudados: retraimento social, baixo rendimento escolar, abalos no autoconceito, processos depressivos podem ocorrer, ansiedade, sintomas referentes a situações de stress e etc. Contudo, o que julgamos urgente discutir é o significado de ficarmos enaltecendo um nome vazio (Bullying), ao passo que, por debaixo dele, há um adoecimento do tecido social, das relações, de nossa cultura, cuja observância devemos priorizar e nos colocar como partícipes do problema e da solução. Dito de outro modo, se seu filho é testemunha de uma situação violenta, desigual, truculenta e ultrajante, é dele também a responsabilidade por evitar, combater e enfrentar a mesma. Que essa defesa não seja interpretada como uma proposta de enaltecimento da delação, mas que possamos dar mais força aos grupos, especialmente quando o desafio é fazer frente à violência.
Esses novos modos de subjetivação marcam nossas maneiras
de existir no mundo, de interpretá-lo e de construí-lo.
Esse não é, seguramente, um fenômeno novo. Novas são as terminologias e a tentativa de transformar esse estado de mal-estar social numa patologia do infantil, passível de tratamento e que, via de regra, ou criminaliza ou isenta os partícipes. Entretanto, não há como negar que nossa cultura hipermoderna infla todas as instâncias, cria a celeridade e o efêmero como marca, bem como aprisiona os sujeitos num mais além de si mesmos, e isso tudo contribui para que os enfrentamentos entre os humanos se tornem mais intolerantes e violentos.
Como combater essa situação? Quais as orientações e ações os pais e as instituições educacionais devem ter diante desse comportamento?
O combate a esse fenômeno passa diretamente pela corresponsabilização e por valorizar os arranjos coletivos de vivência social. Ou seja, eu sou parte da violência, tal qual sou parte de sua solução. É preciso criar uma cultura de valorização da diferença, de tolerância e de diálogo pela qual todos se responsabilizem pela não violência.
Qual a influência da educação (dois pais) nas crianças envolvidas no bullying?
O que infelizmente ocorre na classe média brasileira é um elogio ao privilégio, que deságua na ideia de que, se não for comigo não é problema meu, até que nosso filho se torna alvo ou autor, e é então que os pais vão às escolas ou aos representantes da lei exigir seus plenos direitos. No mais das vezes, esses direitos passam por tentar punir e excluir o agressor. Em tese, acho isso importante desde que levemos em consideração que são ambos, alvo e autor, sujeitos em formação e devem ser tratados como tal. Além do mais, como já foi dito, agredidos têm mais chance de se tornarem agressores, o que resulta na compreensão de que numa situação de bullying ambos estão em risco e merecem atenção prioritária, intervenção urgente e firme, com sanções recíprocas e que façam sentido aos envolvidos.
Essa forma supostamente isenta de encarar tal fenômeno só serve para uma coisa: fermentar sua existência. Nossos filhos precisam de mais autonomia, ou seja, precisamos achar a justa forma entre incentivá-los a ser eles mesmos e frustrá-los da ideia falsa de uma plenitude de possibilidades ou de uma felicidade constante. Esse seria, talvez, o maior dos legados daqueles que educam e formam.
O que esse tipo de comportamento representa na sociedade?
Representa que nossos modos de mal-estar se alteram como o passar dos tempos e que a cultura e a nossa história desenham outros cenários que conformam, por sua vez, outras maneiras de subjetivação. Esses novos modos de subjetivação marcam nossa maneira de existir no mundo, de interpretá-lo e de construí-lo. Atualmente, nossa cultura oferece todos os ingredientes para essa receita azeda, que é a violência entre nossos jovens. A violência virou um produto que angustia em grandes doses, mas que acalma se sorvida em parcas porções, dando a noção de que não é comigo, de que o estrangeirismo da observação à violência me exime dela, resultando num certo comodismo, numa banalização. Banalizar a violência é, ao mesmo tempo, fomentá-la e tornar-nos mais vulneráveis a ela. Sempre haverá violência nos encontros e desencontros inter-humanos, mas podemos fazer alguma coisa mais viável com essa inexorável tensão.












