Na Onda do Guaçatom

Grupo formado por crianças e jovens de Caucaia do Alto já é reconhecido por grandes nomes da música brasileira

Seja na Itália, na França, em Taiwan ou aqui mesmo em Cotia, o Grupo Guaçatom rouba a cena, arranca aplausos da plateia e mostra que não é preciso ter muita idade para esbanjar ritmo e talento.

Formado por crianças e jovens de Caucaia do Alto, grande parte de baixa renda, o grupo foi criado em 1995 e atravessa gerações com uma musicalidade cheia de energia, ainda pouco conhecida na região. “Somos mais conhecidos fora do que na nossa cidade”, conta Caroline de Oliveira, a Carol, que, apesar de jovem, já apresenta uma capacidade musical fora do comum, elogiada por músicos e musicistas renomados e experientes. E ela não está sozinha.

A qualidade musical dos integrantes concedeu ao Guaçatom a autorização de Edu Lobo e Hermeto Pascoal, entre outros artistas, dos direitos autorais de suas músicas, permitindo que o grupo realizasse a gravação do CD utilizando algumas de suas obras.

As meninas não se importam em sustentar os instrumentos pesados e, literalmente, dão conta do recado, e, assim como os garotos, aplicam a atenção a três ou mais instrumentos.

A pequena Giovanna Alves, por exemplo, domina a flauta doce, a escaleta e a percussão, e divide seu tempo entre as brincadeiras de criança e os instrumentos musicais que ela toca com graciosidade.

Conheça, a partir de agora, a trajetória desse grupo excepcional que atravessou oceanos e gerações e comemora a gravação do segundo CD, que representa, em cada faixa, o gingado contagiante verde e amarelo.

Quando tudo começou

A história do Guaçatom iniciou-se na década de 1990, mas vale a pena regredir alguns anos e voltar a 1980, quando o suíço Paul Gottfried Ledergerber foi eleito presidente da Sociedade Amigos de Caucaia do Alto (Saca). Na época, ele resolveu fazer uma pesquisa socioeconômica na região e constatou que cerca de 400 famílias estavam abaixo da linha da miséria. Com a finalidade de contribuir para a mudança daquele cenário, resolveu trabalhar em prol da educação e da cultura.

Dia 9 de março de 1985 nascia a Associação Filantrópica Criança Feliz. A ideia inicial era manter uma creche, uma pré-escola e um centro juvenil. Em 1989, foram inauguradas as primeiras instalações da Creche Criança Feliz. Em 1994, quando a primeira turminha deixava a pré-escola para ingressar no primeiro grau, o Centro Juvenil abriu suas portas com o intuito de dar continuidade ao trabalho com essas crianças. O centro acolhia crianças e jovens, entre 7 e 14 anos, no período em que não estavam na escola, e oferecia atividades como artes, esportes, reforço escolar, escotismo e, entre outras opções, a iniciação musical.

A diretora da creche, Carmem Toledo, convidou Isa Uehara (hoje líder do Guaçatom) para ministrar um curso aos professores da creche. Isa acabou se envolvendo com o trabalho da entidade e, em 1995, começou a trabalhar mais intensamente com as crianças. Nessa época surgiu o Guaçatom, cujo nome faz uma alusão à guaçatonga, uma árvore com fins fitoterápicos frequente na Mata Atlântica. “Assim como a guaçatonga cura o corpo, o Guaçatom cura a alma”, menciona Paul.

Em 2009, as atividades da creche e da pré-escola foram encerradas, permanecendo apenas o Centro Juvenil com ênfase na música. Atualmente, mais de 160 pessoas, entre crianças e jovens, são agraciadas com a iniciação musical, e 26 estão aptas a fazer apresentações, e participaram da gravação do CD.

No repertório, melodias e canções de raízes africanas, indígenas e europeias, base da música brasileira, mas também a música trazida pela imigração de outras nações, como o Japão, cujo povo contribuiu significativamente para o crescimento de Cotia.

De geração em geração

Conforme os integrantes do Guaçatom vão seguindo sua carreira e ingressando na faculdade, novos talentos assumem seus postos. É com orgulho que Isa e Paul contam que alguns dos ex-integrantes foram estudar em países como a Irlanda. Um deles seguiu carreira na dança, o que já era estimulado e desenvolvido no Guaçatom com a professora Beth Bastos. Outros, como Welington de Jesus − que está terminando o curso de Pedagogia este ano − e Ana Paula da Silva, mergulharam de cabeça no projeto e passaram de alunos a professor e monitora, respectivamente.

Clauber Cruz, da primeira geração, já cursa mestrado em letras na Unesp.

A mudança da história de cada integrante que já passou ou faz parte do Guaçatom é nítida, porém cheia de altos e baixos. “A gente tenta refletir sempre, individualmente, com a equipe, com os meninos, mesmo com o ritmo frenético, matando um leão por dia, tentando manter acesa a chama do projeto musical, buscando saídas para as adversidades nessa periferia”, explica Isa.

Para Paul, essa fidelidade por parte dos jovens é resultado da maneira como são desenvolvidas as atividades musicais. “Aqui, eles podem experimentar diferentes instrumentos e ver com qual se identificam.

Os educadores Isa Uehara, Manoel Trindade, Paula Paschett o, Renata Rodrigues e os monitores procuram despertar o gosto pela música de forma prazerosa, com muita seriedade, mas com muita brincadeira também”, afi rma. Segundo ele, a música realizada aqui é um meio que engloba quase tudo o que um cidadão civilizado precisa saber: respeito pelo próximo, dedicação e disciplina.

Trajetória de Sucesso

Além das apresentações constantes em centros culturais, teatros, escolas, universidades, praças, livrarias e grandes eventos, o Guaçatom consolida uma trajetória de muito sucesso. A constituição do grupo (vozes, sopros, cordas, percussão) para as apresentações é de crianças e jovens que cantam e executam flautas transversais, flautas doces, clarinetes, escaleta, cavaquinho, baixo elétrico, vibrafone, metalofone, xilofones, zabumba, pandeiros, alfaias, caixas, surdos, objetos sonoros com material reciclável e piano.

Confira alguns dos acontecimentos que marcaram a trajetória do Guaçatom:

1997 Em 1997, o grupo foi selecionado para o Encontro Latinoamericano de Educação Musical em Salvador (BA).

2000 No fim de 2000, o Guaçatom foi convidado por Hermeto Pascoal para tocar com ele no especial Calendário do Som − transmitido pela TV Cultura, no dia 1º de janeiro de 2001.
Em 2000, lançou um CD multicultural infantil e, posteriormente, foi convidado pelo músico Hermeto Pascoal para a abertura do espetáculo Calendário do Som, na TV Cultura.

2002 Apresentou-se em 2002, em Paris, na Festa da Música Brasileira, seguindo para uma turnê em pequenas cidades da Toscana (Itália).
Ainda em 2002, fez a abertura da XV Conferência Mundial do IPA (Association for Child’s Right to Play − Unicef).

2003 Em 2003, foi selecionado pela Buddha’s Light International Association para I Concurso Internacional de Música Budista em Taipé, obtendo o prêmio de Melhor Es
tilo, além de divulgar a música brasileira em várias cidades da ilha de Taiwan. Recebeu o Prêmio Latino-americano Grupo Solidário São Domingos.

2005 Em 2005, foi semifinalista regional do prêmio Itaú/Unicef.

2006 No ano seguinte, foi selecionado pelo Edital/Música da Caixa Cultural (CEF).

2008 Em 2008, participou das Comemorações do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil

2010 Em 2010, participou da Série Adoniran, 100 Anos na Boca do Povo, da TV Bandeirantes, no centenário do compositor Adoniran Barbosa.
O grupo foi escolhido para a gravação da trilha Uma Canção para Ajudar Mais Gente, composição de Celso Viáfora, na campanha do PNEF/Ministério da Fazenda para 2011.

2011 Em 2011, lançou o segundo CD Guaçatom.
No próximo dia 9 de outubro (domingo) às 11 horas, o Guaçatom fará a abertura do show de Arnaldo Antunes e Mariana Aydar, no Auditório Externo do Ibirapuera (Viva Consul), em São Paulo, sob a regência do maestro Amilson Godoy e a Orquestra Arte Viva.

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