Meio ambiente e lorota

Por que a desatenção com ambiente põe Brumadinho na Granja Viana.

Dos discursos circulantes nas cidades, talvez o mais vulgar seja o do meio-ambiente. Todos amam árvores e não aparecerá quem defenda esgoto no rio. Por isso ficou barato e só “bomba” quando inevitável, como no caso do genocídio continuado provocado pelo vazamento das barragens de Mariana-Brumadinho-e-lá-vem-a-próxima.
Mas vamos situar essa “atenção” ao ambiente. O que mais ofende, em centenas de vidas soterradas e rios concretados sob minério e barro, é o que já se sabia. Havia, no caso de Brumadinho, além do alerta do caso anterior, Mariana, um posicionamento claro do Ibama, em dezembro; um Plano de Ações Emergenciais da própria Vale, de abril (dez meses antes!); e também documentos apresentados pelo Ministério Público de Minas Gerais indicando que em outubro de 2018 a própria empresa Vale já considerava esta de Brumadinho uma de suas dez represas em “zona de atenção”. Todos esses documentos apontavam claramente o risco.
A dor maior é esta: o perigo de morte deixou de ser o que é e virou papel na gaveta, lorota, “chit chat”, um lero-lero que leva a lugar nenhum, formalidade a ser escamoteada. Onde e como aconteceu esse apagamento da urgência numa redução da ecologia a lorota de “ecochatos”?
Talvez o biombo que ocultou o que era evidente tenha sido o lucro galopante da Vale, dona das barragens que ruíram, que conta com ansiosos acionistas no Brasil e nos EUA. Só em 2017, o lucro líquido foi de R$ 17,6 bilhões.
Fica claro que, tornados banais, os discursos ambientalistas no dia-a-dia não conseguem chamar a atenção para outros alvos de empresas que priorizam os lucros, e que de tão expostos acabam se tornando meros pontos de referência urbanos, como córregos, praças e parques, mas que estão sob ameaça de diferentes tipos de mercado, principalmente o imobiliário. Teriam também eles, menores e mais próximos de nós, importância efetiva na qualidade de vida das pessoas, ou na sua sobrevivência? Basta prestar atenção para se verificar que sim e que o descuido, guardadas as proporções, é o mesmo.

Ceagesp na Granja Viana
A Granja Viana por muito pouco escapou de ser transformada, pelo agronegócio, numa beira de Ceagesp (com seus negociadores de caixotes e a degradação que acompanha o entorno desse tipo de comércio) porque militantes e o Ministério Público evitaram que o Parque Jequitibá (antigo Parque Tizo) se tornasse a nova sede do entreposto, como queria doze anos atrás o governo estadual.  Isso requereria a eliminação de um fragmento de 1,3 milhão de m2 de mata atlântica, que seria necessária para a mudança.
Depois de criado, o parque se mantém fechado à visitação, até hoje, mais de dez anos depois, ou pelo menos até a publicação desse artigo, embora já estejam disponíveis ali instrutores, vigias e administradores. Trata-se de uma área com o tamanho do Parque Ibirapuera, por enquanto proibida aos cidadãos. É o primeiro grande fragmento de Mata Atlântica a oeste a divisar a mancha urbana de calor da Grande São Paulo, é portanto a que mais perigo corre no momento. Não há recursos para o parque, alega o governo estadual. Seu gradil está sob constante ataque depredativo e não é reposto, esgoto corre por seus cursos d’água e vários prédios abandonados, onde deveria funcionar a administração do parque, estão degradando, e um aterro vizinho invade sua área.
O que é evidente: o desinteresse do Estado em uma área estrategicamente essencial para a Grande São Paulo, a ponta de lança do enfrentamento à poluição urbana a oeste. Nossa Brumadinho: a “ilha de calor” paulistana provavelmente vai atravessar essa barreira verde, abraçando a Granja Viana, e tende a isolá-la em um “tufo” de vegetação, sem resistência ao entorno, que abriga cada vez mais projetos imobiliários.
Mais ainda: a privatização em curso da Sabesp ofende a Reserva Florestal do Morro Grande, que pertence à empresa de saneamento, mas que também é, de outro ponto de vista, patrimônio de todos os cotianos, já que ocupa um terço do território da cidade, com seus reservatórios e barragens, e centenas de espécies animais e vegetais, algumas em extinção. Quem quer entrar ali são as empresas parceiras da Sabesp, adquirindo áreas a princípio como forma de compensação ambiental, depois quem sabe algo mais lucrativo. E própria Sabesp já tem priorizado orgulhosamente o lucro dos acionistas (lucro líquido de R$ 2,5 bilhões em 2017). Esta reserva em vias de privatização é responsável pelo manancial de água mais limpa que abastece a Grande São Paulo (porque toda a água brota ali mesmo). As invasões são constantes, o zoneamento urbano local é desrespeitado e uma ferrovia que passa dentro dela tem promovido a degradação sem que a Sabesp atente para os reparos dessa situação. No final de 2017, o governo estadual alterou a legislação sobre o local de modo a permitir venda de áreas ali dentro.
O que é evidente: um patrimônio incalculável (água pura, brotando em fragmento de mata em 1/3 da cidade) se degrada e cederá prioridade ao que for estipulado por acionistas de empresas privadas. Nossa Brumadinho: preparem o bolso para pagar mais caro pela água. O território verde dessa parte de Cotia e entorno que não der lucro, permanecerá sob violações crescentes ou desaparecerá.
Olhemos ainda mais de perto. Cotia, por iniciativa de alguns cidadãos como Teresa Maia e integrantes do Rotary Club, transformou um lixão num parque, que leva o nome dela, mas onde os cidadãos tem encontrado dificuldade para entrar, alguns se queixaram recentemente que o parque tem fechado às 17 horas. Abrir à noite, nem pensar. Por que negá-lo aos cidadãos? O próprio Conselho Municipal de Meio-Ambiente de Cotia, que tanto teria a fazer nessa cidade de imensa cobertura vegetal, passou boa parte dos últimos anos desativado.
O que é evidente: aqui, como lá, meio-ambiente não é prioridade do serviço público. Nossa Brumadinho: o espaço público da cidade é em parte sonegado ao cidadão, que não é ouvido em suas demandas.
Além disso, Cotia é, na Grande São Paulo, segundo o Graprohab, órgão estadual de regulamentação de empreendimentos habitacionais, a cidade que mais aprova novos empreendimentos (e segunda colocada no Estado de São Paulo). Vários fatores colaboram para isso: o rodoanel, o fato de ainda ter áreas de terra que permitam empreendimentos etc. Mas, se há contrapartidas dos empreendedores mediadas pelas autoridades, o cidadão comum não as vê, não são divulgadas, os projetos desmatam e nada parece ser feito para compensar a supressão. Além disso, o plano diretor da cidade inexiste ainda, depois de circular erraticamente entre Câmera dos Vereadores e Prefeitura.
O que é evidente: Cotia, por diversos fatores, é a bola da vez do mercado imobiliário. Não há notícia de que esse processo de urbanização voraz esteja seguindo algum planejamento público, seja em zoneamento, urbanística, de infra-estrutura ou de meio-ambiente. Está acontecendo ao sabor das demandas. Nossa Brumadinho: o trânsito interno da cidade, o fornecimento de água, luz, esgoto e serviços públicos aguarda um cenário caótico.

O ar fresco de Cotia
Mas se isso tudo é natural do chamado “desenvolvimento urbano”, o que, afinal, o cidadão da Granja Viana e de Cotia está perdendo com isso? Qual é o nosso grande desastre material? O que temos a sofrer e por que os poderes públicos deveriam se dedicar à questão? As respostas estão longe de ser lorota. São objetivas e estão aí para quem quiser ver.
Uma delas está, literalmente, no ar. Cotia tem ar mais fresco que o de São Paulo em pelo menos dois graus centígrados (o que se constata até em medições genéricas como a do aplicativo Climatempo). Em São Paulo, em medições mais técnicas, chega a até 10ºC a diferença de temperatura entre bairros bem arborizados como o Morumbi, que tem 48m² de floresta por habitante, em relação a um bairro pouco arborizado como Itaquera, com 2m² de floresta por habitante. E a diferença de umidade relativa do ar chega a 30% entre eles.
Juntemos a isso a matemática do corpo (note que nada disse é mera teoria). Um ser humano adulto aspira o ar cerca de 23 mil vezes por dia, inalando 15 m³ de ar. Acontece que segundo pesquisas recentes, enquanto em uma floresta há cerca de 40 micro-organismos por metro cúbico, num ambiente urbano esse número dispara e pode chegar a até 4 milhões de micro-organismos (na medição mais alta, feita no interior de um shopping-center), ampliando muito o risco de transmissão de doenças. Um dos fatores mais importantes para mediar essa saturação é a presença ou não de árvores e seu trabalho umidificando e purificando o ar.
De acordo com pesquisas do médico patologista Paulo Saldiva, professor da Faculdade de Medicina da USP, o morador da cidade de São Paulo perde em média um ano e meio de vida por causa da poluição. Viver na capital paulista, diz Saldiva, seria equivalente a fumar quatro cigarros por dia. Segundo o mais recente relatório da OMS, agência da ONU focada em saúde, publicado em 2018, sete milhões de pessoas morrem anualmente em decorrência da má qualidade do ar. No Brasil, o mesmo relatório fala em 50 mil mortes por ano, mas há pesquisadores estimam um número maior.
Outra resposta, também trazida pela USP, onde pesquisadores não param de constatar a vantagens de ter fragmentos de mata próximos, vem com a pesquisa da bióloga Bruna Lara Arantes, de 2017, sobre arborização e qualidade do ar na cidade de São Paulo. Ela constatou que na proximidade de áreas com mais vegetação há menor incidência de câncer de pulmão em idosos.

Faminta de CO2
Tudo isso tem relação com a capacidade das árvores de absorver gás-carbônico  (CO2) da atmosfera, uma das substâncias mais letais para a saúde humana e o clima do planeta. O quanto cada uma absorve depende de seu tamanho, idade e do tipo de solo em que está, mas é certo que todas fazem esse trabalho. Uma pesquisa divulgada em 2013, feita em conjunto pelo Instituto Totum e pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ), da Universidade de São Paulo em parceria com a Fundação SOS Mata Atlântica, estima que cada árvore da Mata Atlântica absorve 163,14 kg de gás carbônico ao longo de seus primeiros 20 anos de vida.
Sem contar a umidade que a árvore oferece. Segundo o pesquisador da Embrapa Meio-Ambiente Laerte Scanavaca Júnior, uma árvore transpira aproximadamente 0,3 litros de água por metro cúbico de copa. Uma árvore de grande porte (mais de 10 metros de altura) possui em média 120 m3 de copa, portanto, chega a transpirar 400 litros de água por dia. Isso, segundo ele, equivale a 5 aparelhos de ar-condicionado ligados as 24 horas do dia.
E ainda, como se não bastasse a questão da saúde, há motivos econômicos, e essa conta já foi feita de diversas formas. Peguemos apenas duas delas: segundo Scanavaca, no Golfo Pérsico, por exemplo, economizam-se 65% no consumo de energia com ar condicionado em função da arborização. Nos EUA, na cidade de Chicago, são economizados US90,00/residência/ano também em função da arborização das ruas e seu efeito na redução do calor.
Mais um motivo econômico: imóveis com vista para os parques ou florestas urbanas são mais valorizados (cerca de 30% mais caros que os vizinhos sem a vista). E por outro ponto de vista, há que se pensar também na economia em termos de saúde pública com o tratamento dos cidadãos prejudicados pelas doenças trazidas pela poluição.
A lista de benefícios é enorme, assim como a lista de riscos que a cidade de Cotia corre rotineiramente com relação ao seu “DNA verde”, como certa vez definiu o secretário municipal de Habitação, Sérgio Folha. O pior que pode acontecer é a desatenção a essas demandas, reduzindo seu peso na sobrevivência do humano que habita estas paragens, porque o embate entre a forma predatória de ocupação do planeta e a noção de preservação da qualidade de vida está cada vez mais presente.


Autor: Fábio Sanchez, psicanalista com consultório na Granja Viana, e também jornalista. @psicanalise.granjaviana

Artigo anteriorBNI Invictus realizou café da manhã com open networking
Próximo artigoFestival Internacional de Circo reúne artistas brasileiros e estrangeiros em São Paulo