Vida de Chapa

Sem registro em carteira, eles são o braço direito – e forte – dos caminhoneiros.

É provável que ao transitar pelas manhãs por rodovias como a Castelo Branco, Rodoanel Governador Mario Covas, Anhanguera e Bandeirantes você tenha notado à beira dessas vias homens segurando placas feitas de alumínio, madeira ou até mesmo papelão com a palavra “CHAPA”.

Chapa é a denominação dada ao profissional autônomo que é contratado pelo motorista de caminhão para fazer o carregamento ou descarregamento da carga, na origem ou destino.

O ofício já até rendeu um curta-metragem de 15 minutos chamado “Chapa”, estrelado pelo ator cotiano Helias Neto, e chegou a concorrer na mostra Cinéfondation, do Festival de Cinema de Cannes.

Observando dessa forma, este ramo de atividade até parece uma área regulamentada e simples de atuar, porém a “profissão” é mais um bico para profissionais que não conseguiram uma colocação no mercado de trabalho.

“Eu era ajudante em uma empresa de laticínios há 14 anos, depois que fui dispensado da empresa não consegui mais arrumar nenhum outro emprego com carteira assinada”, diz Davi Pestana, de 46 anos.

Kleber Xavier Costa (foto), de 41 anos, também chegou à beira do Rodoanel para trabalhar como chapa após ser dispensado de uma transportadora a cerca de um ano e meio.

“Um colega me disse que se eu ficasse aqui na pista todos os dias, ao menos dinheiro para sobreviver eu ganharia”, declarou Kleber.

Os amigos Edileuson Teles Ribeiro, ex-metalúrgico, de 39 anos, e Eguivanil Ferreira de Jesus, de 30 anos, setes deles atuando como chapas, ainda sustentam o sonho de ter carteira assinada.

“Estamos enviando currículos para ver se conseguimos trabalho em alguma empresa, mas está muito difícil”, diz Edileuson.

Os valores dos contratos verbais entre caminhoneiros e chapas variam bastante.

“Tudo depende do volume e da distância da carga ou descarga. Normalmente aqui no Rodoanel as entregas são feitas em Cotia, São Bernardo do Campo, Diadema e até no litoral. Os valores variam entre R$ 70 e R$ 200”.

Mas a falta de seguridade trabalhista é apenas um dos problemas que esses auxiliares de carga e descarga enfrentam. Em muitos casos, a falta de confiança por parte dos caminhoneiros atrapalha o ganha-pão.

“Alguns caminhoneiros preferem trazer ajudantes a contratar nossos serviços, pois tem muito ladrão que se faz de chapa e termina assaltando os motoristas”, salienta Davi.

O chapa Eguivanil declara que com um colega de profissão aconteceu situação inversa com final fatal para seu amigo.

“Um caminhoneiro contratou meu amigo na estrada, e após o fim da descarga o grupo que estava no caminhão deu 13 tiros nele. Algum tempo depois, a polícia descobriu que a carga era roubada”.

Mas para Davi que está “na pista” desde as 6h da manhã a solução de todos os seus problemas é trabalhar.  “Tenho uma filha de seis anos para criar, então não posso nem pensar em ficar parado”, finalizou o chapa ao entrar na boleia do caminhão.

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