Nascido na capital paulista e criado no interior de São Paulo, Eros Prado ingressou, aos 16 anos, no grupo de Teatro ArteAtrando, na cidade de Amparo, época em que ele também ganhava a vida como recreador. Foi em um dos hotéis em que trabalhava que conheceu
Márvio Lúcio, o Carioca, que o indicou para o quadro O Inconveniente, do Pânico na Band. Foi um sucesso imediato e, em uma semana de programa, Eros já era reconhecido na rua. A partir daí, a carreira deslanchou: passou por produções do Multishow, até chegar ao SBT, onde já sentou no banco da praça, participa do Programa Silvio Santos e é repórter esportivo. Está entre os 10 melhores humoristas brasileiros de Stand Up, de acordo com ranking do Hospedario. Tem mais de 900k seguidores no Instagram, onde ao lado da esposa mantém a série Diário de Um Casado. Já no canal Pagode da Ofensa, no YouTube,
são mais de 7,6 mi inscritos. Mas o sucesso não veio à toa: está nas suas veias. O humor faz parte de sua vida, desde criança, quando na escola reproduzia para os amiguinhos as piadas que ouvia nos encontros de família. A chegada na Granja Viana coincidiu com a ascensão meteórica da carreira. Apaixonou-se pelo bairro, quando vinha para as reuniões
de pauta na casa do Emílio Surita. Não demorou muito para mudar de mala e cuia, com a esposa Giovana. A família cresceu: hoje, o casal tem dois filhos e dois cachorros, além dos macaquinhos que constantemente vem visitá-los em casa. É, inclusive, na vida cotidiana, no dia-a-dia granjeiro, que saem boa parte dos seus textos. Em um bate-papo super descontraído e regado a muitas piadas (censuradas por aqui!), revelou para nossa equipe como vive da comédia e quais são suas fontes de inspiração. Para quem acredita que o humor tem o poder de mudar a vida de alguém, podemos afirmar: não dá para ficar cinco minutos ao seu lado, sem dar boas e divertidas gargalhadas. Com Eros Prado, não há
outra alternativa, senão rir.

Sua carreira começou de forma cômica. Seu primeiro papel foi um frango.
Sim, como Brad Pitty. (risos) Sou caçula de três irmãos e o do meio gostava de me aloprar. Um dia, ele chegou e me disse que tinha encontrado um emprego muito bom para mim, como mascote de restaurante. Chamei um amigo para trabalhar comigo e, chegando lá, descobri que era para se vestir de frango e porca. Quando você tá no inferno, tem que ir lá e abraçar o capeta. (risos) Ficávamos na beira da estrada, atraindo as pessoas para dentro
do restaurante. Nossa, e aquela fantasia era quente. E não é que começamos a fazer sucesso e as crianças vinham brincar com a gente? No terceiro dia, uma me pediu para vestir a roupa e eu aproveitei. Quando estava muito cansado, chamava ela para se
vestir no meu lugar (risos).
Como dessa situação inusitadachegou a quase 1 milhão de seguidores no Instagram e 8 no YouTube? Faça um balanço da sua carreira.
Ah, foi uma correria louca. Trabalhei como recreador e, paralelamente, fazia teatro amador que não dava dinheiro algum. Nos hotéis, além da recreação, eu me oferecia para fazer apresentações. Foi assim que o Marvio Lúcio (o humorista Carioca) me viu no palco, convidou para o Pânico e tudo deslanchou. Comecei um quadro criado por ele, chamado O Inconveniente. Criei o personagem, um cowboy, inspirado em um colega de república que tive. Foi um sucesso tão grande que, em uma semana, já estavam me reconhecendo na rua.
Passou por alguma situação constrangedora por conta de ser “inconveniente”?
Carioca me disse, uma vez, que eu falava coisas constrangedoras para pessoas, mas elas riam. E me perguntou como eu fazia aquilo. Eu não sei. Eu acredito que não é o que a gente fala, e sim como se fala. Eu posso dizer algo educado e ser grosso, ao mesmo tempo. Ou eu posso fazer piada e ser gentil. Entende?
Quais são suas principais realizações?
Sempre fui apaixonado por teatro. Então, a primeira vez que tive duas sessões esgotadas foi inesquecível. Tenho a lembrança clara de pensar: cara, eu consegui mostrar meu trabalho! Era 2013, no Conservatório de Tatuí e haviam 1.200 pessoas ali. Ah, e estar sentado no banco da praça com o Carlos Alberto de Nóbrega também me marcou.


Depois do “Pânico na Band”, você partiu para a “A Praça É Nossa” e a carreira decolou de vez, certo?
Eu fiquei por quatro temporadas no Pânico e, em 2016, fui convidado para fazer o mesmo quadro n’A Praça É Nossa, substituindo o Saulo Laranjeira que tinha sido convidado para uma novela na TV Globo. Fiquei uma temporada por lá e mais portas foram se abriram. Passei pelo República do Stand´Up, do Comedy Central, Ceará Fora da Casinha e Treme Treme, ambos do Multishow. Neste último, a personagem era baseada na minha mãe, a Gigi, uma italiana. Estou como repórter do SBT Sports, faço shows e crio quadros de humor para as redes sociais. Montei o canal Pagode da Ofensa no YouTube, que tem quase 8 milhões de inscritos.
Um dos vídeos, inclusive, tem mais de 3,5 milhões de visualizações e foi gravado na Granja Viana.
Estávamos sem dinheiro para gravação, e você sabe, das dificuldades vem as ideias. Resolvemos entrar no carro, colocar câmeras lá e rodar por aí. Paramos no posto de gasolina, onde os frentistas já me conheciam, e aí rolou aquelas rimas. (risos)

Ao lado da sua esposa, Giovana, você também faz uns vídeos bem-humorados que satirizam a vida a dois. Ela é do meio também?
Eu conheci minha esposa na faculdade de hotelaria. Era uma garota que tinha vergonha de tudo. Como os opostos se atraem, nos apaixonamos. Durante a pandemia, com o isolamento, resolvi criar conteúdo fazendo umas pegadinhas com ela. Um dia, fiz uma brincadeira e ela deu uma tirada tão grande em mim, que a galera simplesmente amou. As pessoas gostam quando zoam comigo. Assim, surgiu o Diário de Um Casado. Giovana não curte gravar muito, mas aí eu preciso dar uma xavecada. (risos)

Mais algum outro talento na família?
Gael tem 7 anos e, desde pequeninho, pedeo microfone. Hoje, ele sobe no palco comigo ao final de cada apresentação, com um textinho para criança. Já a Amanda, assim como a mãe, gosta de produzir. E para a Giovana, nos shows, eu criei o quadro Lavando Roupa Suja, em que ela participa comigo.
Quando vemos a sua biografia, encontramos: Eros Prado é ator, humorista e palhaço. Qual destes papéis você se enquadra?
Depois de casado, palhaço. (risos) Falando sério, sou palhaço profissional, de carteira mesmo. Já fiz várias apresentações, inclusive projetos sociais em hospitais. Mas hoje, sou mais humorista mesmo. E se você me perguntar o que eu gosto mais, vou dizer que é do palco. Posso não estar no meu melhor dia, mas ao subir no palco, ligo a chave e é entrega total. Aquela risada do público é um combustível.

Há limites para fazer humor?
Para mim, não. Tem limite para quem está ouvindo. (para e pensa) Tem vídeos do Pagode da Ofensa que eu assisto hoje e é uma mistura de achar que é muito bom com ‘como eu tive coragem de fazer isso?’ (risos) Eu já fiz piadas que eram para ser divertidas na época, mas hoje será que seriam? Há uma diferença entre piada e bullying. Uma coisa é você brincar com alguma situação e todo mundo se divertir. Outra é insistir na piada, a ponto de se tornar ofensivo. Eu nunca fiz piada para magoar ou sacanear alguém, nem na escola. Sempre me coloquei na situação da zoeira, e isso é uma característica do palhaço.
Você é zoeiro sempre, até em família?
Ô, sempre! Sou o cara que, quando alguém está no hospital, me chama para alegrar o ambiente. Uma vez, meu pai estava internado e eu passei um trote para família, imitando minha avó. Meu pai ria tanto que me pedia para parar, se não ia estourar a ponte de safena. Sou de uma família que sempre foi de brincar muito, sabe? Meu pai era uma figura e não tinha quem não gostasse dele, apesar de ser professor de matemática, física e química. (risos) Ouvia meus primos e irmãos contanto piada e eu, como era o mais novo, cresci reproduzindo o que ouvia, até na escola, mesmo que meus amiguinhos não entendessem. (risos)
Então, digamos que você já nasceu comediante.
Acredito que sim. Ou, então, todo o restante deu errado e só sobrou o humor. (risos) Sempre morei no interior, numa chácara e ia com os pés de barro para escola, então os moleques me zoavam muito. Por isso, desde sempre, se eu não aprendesse a retribuir essa zoeira ou ser mais zoeiro do que os que me zoavam, eu iria sofrer a vida inteira.

Quando e como percebeu que o humor podia ser sua profissão?
Foi por acaso. Tinha 17 anos, trabalhava em hotel e fui pedir um aumento. Negado. Não me dei por vencido e ofereci um show. Como resposta, ouvi outro sonoro não. Guardei aquilo para mim e, com 23 anos, já trabalhando em outro hotel, fui pedir novamente um aumento. Mas já sabendo que poderia ser negado, ofereci um show aos finais de semana: eu bateria o ponto durante o dia e, à noite, voltaria para um espetáculo. Não é que aceitaram? Mas eu não tinha um show pronto. Saí correndo da reunião e fui para a salinha das crianças escrever um espetáculo para três pessoas no palco, eu e mais dois amigos, baseado no Terça Insana (projeto humorístico apresentado por diferentes atores interpretando variados personagens). Chamei de Rir É o Melhor Remédio e foi um sucesso.
Você está, em ranking do Hospedario, entre os 10 melhores humoristas brasileiros de Stand Up. Esperava tanto?
Acho que foi minha mãe que ligou lá várias vezes para votar (risos).

Qual sua avaliação sobre o mercado de stand-up comedy brasileiro?
Com o surgimento de muitos humoristas, o mercado ficou ‘nichado’. Hoje, temos stand-up voltado para os fitness, para um lado ou outro da política, para mulheres e assim por diante. Temos diferentes públicos, o que não se via antes. Eu, por exemplo, estou mais voltado para o comedy de casais agora. Algo que ajudou a popularizar nosso trabalho foi a Internet. Não precisamos mais exclusivamente da televisão, assim como o músico não depende só do rádio.
Aproveitando este gancho, com a música, o público costuma ir aos shows já sabendo o que vai escutar. Com o humor também é assim?
É muito louco isso, porque muitas vezes o espectador eespera ouvir uma piada que já ouviu, sabia? Tenho um vídeo, o Depilação com Gaita, que fez muito sucesso nas redes sociais e as pessoas me perguntam se vou repetir no palco. Nãoooo e parabéns, mulheres, porque dói muito. (risos) Tem piadas que conto em entrevistas ou podcast, que as pessoas querem que eu repita ao vivo. Então, agora, tento evitar contar por inteiro para as pessoas terem uma surpresa no show.
Existe uma receita pronta para fazer humor?
Há até livros que ensinam, mas eu não acredito nisso. Pode ter dicas de como melhorar ou contar uma piada, mas ensinar a fazer humor? Não, isso já nasce com a pessoa. Se ela vai fazer disso uma profissão ou não, não sabemos. Mas o humor já está na veia. E digo que isso vicia, tá? Se alguém ri, você logo quer contar outra piada para ganhar outro riso. E assim vai indo. Um caminho sem volta. (risos)
Quais as dicas daria a quem está começando na área?
Espelhar-se em pessoas que acha engraçadas e que te divertem. Mas não queira ser elas. Tente ser você mesmo. O humor tem que ser natural.
E ele é essencial na vida das pessoas, não é?
Sim, primordial para o bem-estar. Humor tem o poder de mudar a vida de alguém. Volta e meia, recebo mensagens de pessoas agradecendo por tê-las feito rir e melhorado seu dia. Essa troca é importante para nós, humoristas, porque somos humanos e temos dias ruins também. Penso que humor deveria ser matéria de escola.
Admira o trabalho de algum humorista?
Sou um super fã do Ary Toledo. Como palhaço, amo o (Charles) Chaplin e o Tubinho.
Quais são as principais fontes de humor que você usa?
Coisas do cotidiano. Por exemplo, acabei de encontrar um gergelim no banco do carro e, logo, pensei na cena da minha esposa achando o objeto suspeito, só que ao invés dela reclamar que era um cabelo ou um batom, diz: ‘como assim você foi comer Big Mac e não me chamou?’. Esse é o tipo de humor que eu faço. Não consigo fazer piadas sobre notícias. Prefiro fazer do dia-a-dia das pessoas normais.

Como descreve seu estilo?
Dinâmico e improvisado. Meu show é feito de histórias e, dentro delas, as piadocas. Então, se alguém extrai apenas um trecho, não vai entender o contexto.
Quais são as principais dificuldades que enfrenta ao criar seus materiais?
Como sou casado, é minha esposa deixar eu fazer. Sou do time dos pau-mandado. (risos) Não é só medo dos processos que posso sofrer, não. Ela sempre me fala: com quem cara eu vou chegar na escola das crianças?
E as principais lições que aprendeu ao longo da carreira?
A vida me ensinou que sempre podemos dar um tempo no trabalho. Infelizmente, queremos sempre deixar tudo para depois, o lazer, a saúde, a família… e esse depois pode nunca chegar. Então, não deixe o trabalho deixar tudo para depois.

Como é sua rotina?
Acordo às 7h para levar meus filhos na escola e, em seguida, vou para a academia. Na volta, faço toda parte do conteúdo digital, como edição de vídeo e postagens. Não gravo todos os dias, mas tem dias em que eu faço mais de um vídeo. Às quartas, gravo o podcast HDH (Hóspedes do Hospício) e o SBT Sports. Às vezes, tem gravação do Jogo dos Pontinhos, do Programa Silvio Santos, também.
Em 2020, você deixou o riso de lado e superou desafios no Troca de Esposas, programa da TV Record. Como foi essa experiência?
Sensacional. Fui parar lá na Zona Leste, na casa do Paulão, um fisiculturista. Durante alguns dias, eu tinha que viver como aquela família. Como ele era atleta, tinha o hábito de comer arroz e frango de manhã. Era difícil para eu comer isso às 9h, se eu sou uma pessoa que acordava às 10h na época. Foi uma experiência muito legal, mas o meu medo era como as pessoas iriam me ver, entende? Porque estamos falando de um reality show. Mas foi sucesso e colocou em teste a masculinidade contemporânea e os desafios da paternidade. Consegui aproximar o Paulo dos filhos e, graças a ele, passei a ter pique de ir à academia. (risos) Fomos as primeiras famílias a assistirem, juntos, ao programa no ar e temos contato até hoje.

Nascido em Montevidéu, Uruguai, criado na cidade de Pinhalzinho e morador da Granja Viana.
Antes de mais nada, preciso revelar a verdade. A cada cidade que eu ia e dava entrevista, eu contava uma história diferente. Um dia, no Pará, para um jornal local, eu falei que era
uruguaio. Não sei quem fez minha Wikipedia e colocou essa informação lá. Mas eu não, não sou uruguaio. É a primeira vez que conto a verdade para um veículo de comunicação, porque para todos eu dizia que minha mãe e meu pai estavam viajando e eu nasci de parteira. (risos) Falando sério, eu nasci na capital paulista. Sou o mais paulista dos paulistas: nasci na Maternidade São Paulo, na Avenida Paulista. E fui criado no interior.

Como chegou por aqui?
A Granja chegou junto com a minha carreira. O Pânico me trouxe para cá. As reuniões eram na casa do Emílio (Surita, o apresentador) e me encantei com o bairro, porque tipo assim eu poderia morar numa chácara com dois shoppings na porta e McDonald’s 24 horas. Como ainda estava no começo da carreira, fui morar na casa emprestada de uma amiga lá pelos lados do km 30, até que eu comprei uma aqui mais para o miolo da Granja.

Tem bichos em casa?
Minha esposa tem: eu! (risos) Temos dois cachorros, o Fernando e a Eva, e os macaquinhos, que não são meus, mas que entram em casa direto. Tem gente que fala que eu moro muito longe. Mas, cara, longe é morar no interior como eu morava. Por mim, eu não mudaria nunca daqui, porque a Granja oferece tudo o que eu preciso e, além disso, tenho a oportunidade de encontrar pelas ruas ou nas capas da Circuito artistas que admiro.
Para encerrar, quais seus projetos futuros?
Acabei de estrear o espetáculo Diário de Um Casado e pretendo viajar com ele pelas principais capitais do Brasil. No meu radar, está ainda lançar o quadro Lavando Roupa Suja na Internet. E fora do humor, estou abrindo uma clínica de estética lá em Florianópolis.
Em quem você aposta?
Os humoristas Angelo Luchezi e Bruce Lee e o imitador Rodrigo Cáceres.

Por Juliana Martins Machado















