Desde que se formou com honras em Artes Plásticas, pela Universidade UNSW Art & Design, Michelle Loa Kum Cheung têm exibido seu trabalho de forma consistente, em exposições coletivas e individuais. Em seu mais recente conjunto de obras, Loa Kum Cheung cria ambientes fictícios e utópicos, com a intenção de explorar a ideia de uma herança cultural defasada. Seu trabalho é uma resposta ao deslocamento geográfico de sua família e o abismo por isso criado, entre o local onde ela nasceu e cresceu, as tradições de sua família e sua identidade, como uma australiana-chinesa.

Técnicas tradicionais da pintura chinesa são a base de sua criação, que tem como característica marcante o uso do traço como forma de expressão. Indo de encontro à pintura ocidental, que joga com o claro e o escuro e camadas sobrepostas de cores, em sua pintura, a melodia delicada e os sentimentos expressados são feitos através de pinceladas simples, o que se deve ao uso hábil do pincel, uma tradição milenar. Uma das principais características da pintura chinesa adotada pela artista é a perspectiva múltipla – todo o panorama do objeto pintado pode ser representado na mesma cena. Nela o pintor transporta para o papel tudo o que queria expressar por meio de sobreposições de figuras, que às vezes não são simultaneamente vistas. O simbolismo também é uma característica marcante, mas a alma da pintura da China são os efeitos revelados por intermédio de pontos, traços e energia das pinceladas.

As paisagens de Michelle são criadas a partir de sua memória e intuição. Os contrastes entre sua percepção e a realidade criam uma tensão delicada, que faz o observador questionar se o que vê é realidade ou fantasia.

Usando a madeira em sua forma mais pura como sua matéria-prima de criação, Michelle usa diversas técnicas em seu trabalho, tendo a pirografia como carro-chefe. Também vemos o uso da tinta a óleo, do grafite líquido e a aplicação de folhas de ouro. Unindo tudo de forma precisa e harmônica, ela garante que as marcas deixadas na madeira são ao mesmo tempo enigmáticas e etéreas.

A pirografia é a arte de decorar a madeira, ou outros materiais, com marcas de queimadura resultantes da aplicação controlada de um objeto aquecido, como o Fireplacepoker, também conhecido como pokerwork ou woodburning. De origem grega, a palavra significa escrita + fogo. Cogita-se que a pirografia foi uma das primeiras manifestações artísticas humanas, já que a humanidade descobriu o fogo há mais ou menos 10 mil anos.

 

Vamos Observar

Furl, 2019

Pirografia e folhas de ouro sobre madeira 

60×60 cm

Londres, Reino Unido. 

 

Furl, que significa algo como enrolar, é parte de uma série criada com a intenção de captar a intensidade e complexidade da natureza. O tema desta obra é a Floresta de Minnamurra, na Austrália, o exato local onde a artista nasceu.  As cores foram deixadas de fora da obra propositalmente, para que o foco esteja nos detalhes do ecossistema da floresta.  Seguindo as tradições chinesas, a imagem foi criada a partir da sobreposição de várias fotos por ela tiradas. A junção das imagens acaba criando um lugar novo, que existe somente em sua obra, um ambiente fictício e híbrido. O posicionamento da imagem dentro de um círculo tira mais ainda a paisagem do seu elemento natural, reforçando a visão da artista, como um buraco na realidade.

Caracterizada pela serenidade e permanência das formas expressivas e pela rigidez de valores estéticos, a obra de Michelle procura sempre a harmonia com o universo. Sua arte revela-se ao mesmo tempo tradicional e contemporânea, procurando traduzir, por meio de um forte cunho poético, o estado de espírito da artista. A naturalidade das representações é ilusória, pois seu interesse é mais pela tradução de uma visão ideal do mundo do que pelo realismo das cenas.

 


Por Milenna Saraiva, artista plástica e galerista, formada pelo Santa Monica College, em Los Angeles.

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