Conheci o João quando me mudei para a Granja Viana. Era meu vizinho e logo ficamos amigos, com algumas paixões em comum. Música e futebol. Todo sábado ele promovia uma democrática partida de futebol no campinho de grama da sua casa. Às vezes, eu chegava mais cedo a tempo de curtir um miniconcerto seu no lindo piano de cauda instalado na sala. Era um desbunde. João tocava Bach como ninguém no mundo. Foi consagrado em vários países pelo talento e habilidade. Como sempre, seu talento foi mais reconhecido no exterior do que por aqui. Eu conhecia bem a trajetória artística do João, suas conquistas, seus desafios e seus dramas. Mas ao assistir o filme que conta sua vida e obra, João, o Maestro, mais uma vez me surpreendi e emocionei-me com tamanho desatino. João Carlos Martins, pianista e maestro, ex-granjeiro, artista de tantas conquistas, por duas vezes teve o destino cruel de acidentar-se e ficar fisicamente prejudicado justo nas mãos que era por onde seu talento se revelava. Em 1965, em um jogo-treino da Portuguesa realizado no Central Park, Nova York, ele foi convidado para integrar o time, mas teve uma queda e perfurou o braço direito na altura do cotovelo, atingindo o nervo ulnar, provocando atrofia em três dedos e obrigando-o a parar de tocar por um ano. Anos mais tarde, vítima de um assalto na Bulgária, sofreu traumatismo craniano que prejudicou seus movimentos com os dedos. Como pode alguém ser privado de exercer sua paixão e sua dádiva por conta de uma terrível coincidência, em que a perda dos movimentos dos seus dedos o impedia de mostrar ao mundo a sua arte? João lutou e se superou, mas fica a pergunta: por que justo nas mãos, sua ferramenta de trabalho e mais importante parte do seu corpo e por onde mostrava ao mundo a sua paixão por Bach? Refletindo nesse ponto, lembrei-me de outros exemplos de infelizes coincidências, acidentes com a mesma carga de tragédia. Karma? Quem não se lembra de Osmar Santos? Locutor esportivo que revolucionou as transmissões futebolísticas com um jeito moleque cheio expressões inovadoras, paixão e emoção? “Parou por que, por que parou”? ”Ripa na chulipa e pimba na gorduchinha”, “Um pra lá, dois pra cá, é fogo no boné do guarda”, “Sai daí que o Jacaré te abraça, garotinho”, “No carocinho do abacate”, “vai garotinho, porque o placar não é seu” e uma das narrações de gol mais marcantes do rádio brasileiro: “Tiro-lirolá Tiro-lirolí e que GOOOOL”. Também foi Osmar Santos quem criou a expressão “Animal”, que melhor representou o jogador Edmundo, terminando pelo próprio atleta aceitar a expressão por se tornar sua marca registrada. Pois Osmar no auge da sua carreira sofreu um grave acidente de carro onde bateu a cabeça e teve o cérebro afetado justamente na área da fala. Uma desgraça. Osmar perdeu a capacidade de articular as palavras e, com isso, teve que abandonar sua paixão de narrar partidas e nos privar do seu talento. As tardes de domingo ficaram mais tristes. Karma? Outro exemplo de infeliz coincidência de destino cruel foi João do Pulo. João Carlos de Oliveira, conhecido como João do Pulo, foi um atleta especializado em saltos, sendo ex-recordista mundial do salto triplo, medalhista olímpico e tetracampeão pan-americano no triplo e no salto a distância. João teve a carreira de atleta brutalmente interrompida em 1981, quando sofreu um grave acidente automobilístico. Após quase um ano de internação na UTI, sua perna direita teve de ser amputada, o que significou o encerramento de sua carreira de atleta. De novo, a história se repete. A parte do corpo por onde o talento de João se revelava lhe foi extraída. Coincidência, destino, provação, tormento, karma? Fica a reflexão.


Por Marcos Sá, consultor de mídia impressa, com especialização em jornais, na Universidade de Stanford, Califórnia, EUA. Atualmente é diretor de Novos Negócios do Grupo RAC de Campinas

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