Há 43 anos a necessidade de um pequeno indivíduo que ainda nem imaginava o que significava a palavra “cuidados” fez Nelzita Marçal Pereira (à direita da foto) tornar-se mãe solteira, ou melhor, mãe noiva.
“Meu noivo tinha um amigo muito próximo que, em uma relação com uma moça, resultou no nascimento não planejado de uma menina. Por serem grandes colegas, este amigo nos convidou para ser padrinho da criança e aceitamos”, diz Nelzita.
Após dois primeiros meses do batismo, Nelzita percebeu que a criança não recebia os cuidados necessários por parte da mãe, vivia de casa em casa e sem um responsável por seu bem estar.
“Foi quando tomei a responsabilidade para mim, antes mesmo de casar, e levei a criança para a casa de meus pais”, declara Nelzita.
Assim como Tânia Marçal Pereira (à esquerda da foto), hoje legalmente filha de Nelzita, muitas crianças, por diversos motivos, são privadas dos cuidados de seus pais biológicos, mas ganham da vida o carinho de quem não teve nada a ver com o início de suas histórias, mas pretendem fazer parte do resto de suas vidas.
“No ano de 2012 concluímos 12 adoções em Cotia, sendo seis de crianças de zero a cinco anos, e as outras seis adoções tardias, ou seja, meninos e meninas com mais de seis anos, o que dificulta a adoção”, salienta Maria Regina da Silva, assistente Social da Vara da Infância e Juventude do Foram de Cotia.
De acordo com dados do Departamento Técnico da Vara da Infância e Juventude, entre o início do processo, que é a procura dos interessados na adoção, entrega de toda a documentação necessária, protocolo com o promotor, estudo psicossocial dos futuros pais e mães realizado pelo juiz, entrevista e analise psicológica concebidas por assistentes sociais e psicólogos, e por fim, a sentença do magistrado, lá se vão cerca de sete meses.
Depois disso, tem uma lista de espera em relação ao perfil da criança, pois na maioria dos casos, os interessados procuram crianças com menor idade possível.
“Hoje temos cerca de 50 interessados à espera de uma oportunidade para adotar, temos cinco crianças com mais de seis anos e nenhum menor com menos de cinco anos”, diz Maria Villani de Sá, assistente Social da Vara da Infância e Juventude do Fórum de Cotia.
Segundo as assistentes sociais, os interessados que são atendidos neste ano, iniciaram o processo de adoção no ano de 2007.
A preocupação de minuciar o processo quando o que está em risco é o futuro de uma criança é compartilhado por todos os profissionais que atuam nessa área, mas para as pessoas interessadas em dar proteção e amor para quem precisa, o caminho é muito longo. Para o casal Marcelo Sampaio e Eduardo Indig, longo até demais.
“Não sabemos se é por inoperância do judiciário ou por preconceito, mas desde que nos inscrevemos no cadastro de adoção, nunca fomos chamados, e só conquistamos a adoção de nosso filho, porque fomos atrás e batalhamos por isso”, declara Marcelo Sampaio, pai de Manuel Eduardo Indig Sampaio.
Marcelo diz que até gostaria de dar um irmãozinho ao Manuel, mas não consegue entender como pessoas com condições morais, espirituais e financeiras tem tanta dificuldade para conseguir a guarda de uma criança que precisa de cuidados e amor.
Independente da questão tempo, para Maria Regina, que atua há 17 anos na da Vara da Infância e Juventude, o cadastro de adoção é criterioso para que não haja erros, e desses equívocos a corda arrebente para o lado mais fraco, no caso, o lado da criança, que termina sendo devolvia ao Poder Judiciário.
Como aconteceu no ano de 2001, em Uberlândia, Minas Gerais, onde um casal adotou uma criança de quatro anos, e depois de dois anos de convívio com o menino, o devolveu ao abrigo, sem uma explicação plausível.
No mês passado o casal foi condenado pela Justiça mineira a indenizar o garoto, hoje com 17 anos de idade. O valor da sentença a ser paga por danos causados ao adolescente é de R$ 15 mil, além de 15% do salário mínimo como pensão alimentícia até que ele complete 18 anos ou, caso esteja estudando, até os 24 anos.
“É necessário pensar que lugar na vida do casal ou da pessoa, essa criança irá ocupar. Poucos dos interessados que não são considerados aptos à adoção, são reprovados por não ter essa questão clara durante o pedido de requisição da guarda de uma criança” diz Regina.
Para as assistentes sociais um dos pontos essências nesse processo todo é não ter julgamentos em relação aos motivos pelo qual a criança foi entregue aos cuidados do Estado.
“Não devemos julgar o motivo da mãe deixar a criança aos cuidados do Estado, pois também é um ato de amor ter consciência de que não se pode dar uma vida digna ao bebê. Mas é necessário que a entrega, sem abandonos de incapaz, e a adoção do menor sejam realizadas de forma legal, pois para uma se tornar história bonita não pode começar com mentiras”, finaliza Regina.














