CAPA

Apesar do crescimento bombástico da região, a Granja Viana continua sendo um refúgio, principalmente para os artistas cujo ritmo de trabalho é intenso e acelerado.
Portanto, não foi nada difícil encontrar o personagem escolhido para estampar a capa da primeira edição de 2013; uma pessoa encantadora que “invadiu”, por duas décadas, a residência de milhares de brasileiros com seu sorriso largo, feição marcante e gingado brasileiro, cheio de bossa.
Sebastian, que ocupou por décadas o cargo de garotopropaganda da C&A, recebeu a equipe da REVISTA CIRCUITO no aconchego de sua casa, linda, por sinal. Sua esposa, Ivone, avisou que tirar os sapatos antes de adentrar a casa era costume da família.
Uma regrinha que deixou todos bem à vontade.
O suficiente para que a entrevista e a sessão de fotos durassem quatro horas e meia sem que ninguém percebesse. O tempo deu uma trégua, conspirou a favor do momento, e Sebastian estava tranquilo e sem pressa para contar uma trajetória infi nitamente brilhante. Um dia atípico, já que possui um ritmo frenético de trabalho e sua agenda vive lotada de compromissos.
Sebastião Aparecido Fonseca é alguém feliz, inteligente e com a sensibilidade à flor da pele. Dono de um carisma fora do comum, é impossível não reparar em seu olhar sincero e no corpo torneado, resultado de uma vida dedicada e disciplinada na música, na dança, no esporte e na passarela. Aos 12 anos, já dançava sapateado como ninguém.
Bom de papo, cada resposta vinha acompanhada de um pensamento profundo e filosófico; com certeza, seria um grande e renomado filósofo contemporâneo se não fosse um artista multitalentos.
Assumindo um primeiro papel pós-garoto-propaganda C&A, onde ficou por 20 anos e está afastado há pouco mais de dois anos, Sebastian é o vocalista da banda Sebastian Beach e está tendo a oportunidade de mostrar que pode exercer outros papéis no contexto musical.
Sempre de bem com a vida, a primeira frase dita por ele foi: “Vocês têm certeza de que querem dar moral ao negão aqui?” A CIRCUITO não perderia esta entrevista por nada nesse mundo.
O cara nasceu para brilhar.
RC: Sebastian, vamos começar lá atrás. Conte-nos da sua infância e da sua relação com seus pais e irmãos.
Sebastian: Costumo dizer eu que não nasci, fui materializado. Sou mineiro de Belo Horizonte. Tenho uma relação excelente com meus pais e irmãos. Comecei a gostar das relações humanas a partir da minha família, observando o dia a dia dela e vendo os acertos e os equívocos que eles cometiam. Transformei aquele cenário num grande laboratório para que pudesse perceber como era a nossa sociedade.
RC: Aos 12 anos você já era um artista. Como a arte
entrou na sua vida?
Sebastian: Primeiro, pelo amor e carinho que tenho pelo ser humano. Por isso, sempre tive uma necessidade tremenda de me comunicar. Eu gostaria de ter sido um padre, mas acredito que não seria muito eficiente, pois o padre precisa ter muitos limites. Resolvi fazer da minha arte o meu sacerdócio. O palco seria o altar e o teatro, um grande templo.
O meu inspirador inicial foi o ator e dançarino Fred Astaire (1899 – 1987). Quando passava algum filme dele na Sessão da Tarde, eu deixava de ir à escola para vê-lo. Para mim, ele era uma referência de elegância, bom gosto e modernidade. Meus tios eram atores natos e muito talentosos. Tive, ainda, a influência dos melhores músicos que ajudaram na formação da minha personalidade. Com 3 anos de idade, eu escutava Ataulfo Alves, Elis Regina, Jair Rodrigues e Louis Armstrong. Aos 12 anos, comecei a fazer sapateado. Aos 14, trabalhei em um espetáculo com o Oswaldo Montenegro, elenco formado por Cássia Eller, Zélia Duncan e muitos outros grandes nomes da música.
RC: E quando foi que o Sebastião se transformou em Sebastian?
Sebastian: Ainda jovem, entre 12 e 13 anos, tive a oportunidade de conhecer Mr. Ken do Joffrey Ballet, e fui fazer um curso de dança nas férias. Os estrangeiros não conseguiam pronunciar Sebastião, e falavam Sebastian. A professora da Academia Internacional de Ballet disse que eu seria o Sebastian. Como queria ser bailarino clássico, gostaria de ser chamado de Sebastião, pela masculinidade do nome e pelo fato de que ter esse nome no balé clássico seria muito exótico. Mas o Sebastian prevaleceu.
RC: E quando isso aconteceu, você já sabia que iria fazer sucesso?
Sebastian: Eu tinha certeza. Quando eu tinha 12 anos, dizia para a minha mãe que a empresa que acreditasse no meu talento e permitisse que eu trabalhasse seria a maior empresa do Brasil e da América Latina. Além de ter tido a influência de grandes artistas, tive a influência de grandes filósofos, e com eles aprendi que eu sou do tamanho do meu sonho e que tudo o que eu fizer de alma e coração conseguirei materializar.
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| Sebastian recebe a equipe da REVISTA CIRCUITO em sua casa |
RC: Vamos falar um pouco de C&A. Conte-nos esta trajetória e como te descobriram.
Sebastian: Na verdade, não foi uma descoberta, e sim um encontro. Eu estava fazendo parte de um espetáculo chamado Emoções Baratas, e o elenco era formado por sete bailarinos. Eu não estava desde o começo, e sim Rui Moreira, que foi a grande referência da dança no Brasil. Ele participou desse espetáculo e, ao sair, me chamou para entrar, já que havia montado um personagem inspirado em mim. Um dia, eu com quase 24 anos, o diretor do show nos convidou para fazer um teste para a propaganda de uma loja de departamentos e, quando ouvi a trilha sonora, reuni todas as influências dos artistas de que gosto − Louis Armstrong, Elis Regina, Toni Tornado, James Brown −, coloquei no processador e trouxe à tona um personagem com os olhos arregalados, movimentos largos e sofisticação. Fui aceito de maneira incrível, e não conseguiram pensar em outra pessoa para fazer esse trabalho. Fiz a primeira filmagem e, para a minha surpresa, o comercial foi um arraso e virou um sucesso nacional. De 20 lojas abertas, até o último momento em que estive na empresa, saltou para 175 lojas em todo o Brasil. Descobri que a minha relação não era com a C&A, e sim com o público. Passei a frequentar diversos eventos relevantes não somente para representar a empresa, mas para dizer às pessoas uma palavra muito importante: obrigado.
Sebastian: Vinte anos é muito tempo. Vamos dizer que durou duas décadas (risos). Encerramos o contrato há cerca de dois anos e meio.
“Resolvi fazer da minha arte o meu sacerdócio.
O palco seria o altar e o teatro, um grande templo.”
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| Como garoto propaganda da C&A |
RC: Você dança, canta, atua, desfila. Qual destas atividades te deixa mais feliz?
Sebastian: Uma suporta a outra. Para que eu possa dançar, preciso ter musicalidade; para isso devo saber contar uma história, então preciso ter uma vivência cênica, consequência de um contato com a literatura, e por aí vai. A integração da ciência e da natureza se complementa, deve estar conectada. A disciplina oferece a liberdade de ser e fazer o que você quer e te deixa feliz.
RC: E como você se descobriu cantor?
Sebastian: Desde os 14 anos trabalho com musicais, e entendi que para dançar uma música que eu realmente gostasse, ou teria de esperar um maestro produzi-la algum dia, ou teria de construí-la. Tudo o que faço é tão honesto que é para o meu prazer, para justificar minha presença na Terra, para promover as relações e para fortalecer a instituição, afinal, somos células de um só corpo.
RC: Quando veio o primeiro projeto musical?
Sebastian: Em 2005, veio o Melada de Nego, que foi uma grande brincadeira. Trabalhei a sensação da conexão da música com a dança e com o teatro, fazendo este primeiro estudo de proximidade intensa dessas relações. Com esse trabalho, veio a certeza de que o caminho era este, apesar de o momento não ser, em razão de uma agenda muito pesada. Eu inaugurava loja por todo o Brasil, e não poderia pensar em outra coisa.
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| Sebastian possui veia musical e lançará em breve o seu mais novo trabalho: Sebastian Beach. |
RC: E agora é o momento do Sebastian Beach? Conte sobre este projeto.
Sebastian: É uma grande mobilização da alma musical. É uma fusão do nu jazz, do soul, do funk, do hip hop, do blues e da música brasileira. Fizemos uma grande alquimia. Este projeto tem a ideia de buscar músicos internacionais, remixar e mandar material nosso para que eles possam remixar e fazer essa ponte artística. O Sebastian Beach é formado por mais duas pessoas além de mim. O produtor musical é o Caio Duarte, que é um multi-instrumentista e alguém muito sensível para a música. O Swing Tronic é um DJ que tem na sua mala de músicas uma relação muito forte com o beach, o swing, o groove. Ele tem uma atitude musical muito interessante.
RC: E o Núcleo Sebastian, o que representa para você?
Sebastian: O Núcleo de Artes Cênicas é outra fase muito interessante da minha relação com o público brasileiro, e é uma maneira de dizer muito obrigado, devolvendo à sociedade os benefícios que recebi com o trabalho social. O Núcleo existe há dez anos, em Osasco. Temos um convênio com o município e as crianças são da rede pública e de baixa renda, o que não lhes permitiria acesso ao balé, à música e ao teatro. Passei por essas disciplinas, e elas me deram a condição de construir o meu caráter. Se eu me tornei quem sou por meio da arte, acredito que essas crianças poderão ser muito melhores e que nos proporcionarão muitas alegrias. As crianças entram com 7 anos e ficam por dez anos sob a nossa responsabilidade. Quero montar uma companhia para que elas possam rodar o mundo e ajudar outras crianças a sonhar, como estou humildemente fazendo. Indiretamente, cerca de 100 mil pessoas foram beneficiadas pelo Projeto Escola, onde, a cada ano, montamos um espetáculo ao qual todas as crianças da rede pública têm acesso. Queremos ampliar e fortalecer o projeto. O céu é o limite.
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| A REVISTA CIRCUITO foi assistir ao espetáculo dos alunos do Núcleo Sebastian: “Se eu me tornei quem sou por meio da arte, acredito que essas crianças poderão ser muito melhores” (Sebastian) |
RC: Fale de sua família: casamento e filhos.
Sebastian: Eu só tive uma namorada na vida, e ela é a Ivone. Estamos juntos desde que coloquei o pé, pela primeira vez, em um set de filmagem, há quase 23 anos. Geramos um casal de filhos; o mais velho está na faculdade e a mais nova morando em Londres. Eu tenho família porque é uma referência viva de um mundo mais equilibrado, onde aprendemos a escutar, observar e respeitar.
RC: Como você descobriu a Granja e o que curte fazer por aqui?
Sebastian: Quando eu era criança, fazia rotação de cultura; eu plantava, colhia, subia na árvore e acompanhava as árvores dando frutos. Quando trabalhei no Grupo Camaleão, em Belo Horizonte, viajava de ônibus pelas cidades, tanto no interior de Minas quanto no interior de São Paulo. Eu via no meio do mato aquelas casinhas, entre uma montanha e outra, com aquela paisagem bucólica, e pirava. Eu sempre desejei morar num ambiente que me proporcionasse essa conexão. A Granja me presenteia com isso. Araras, saguis, pica-paus. Vejo esses animais quando saio para caminhar. Estamos há sete anos numa casa sem muro, rodeada de árvores e muito próximos da natureza.
RC: Como você lida com este crescimento acelerado da região?
Sebastian: Tenho certeza de que isso é um ciclo, um movimento do universo, que pode ser acelerado ou não. Acho que podemos reduzir esta aceleração plantando árvores, cuidando da nossa água e curtindo este momento que, de fato, está indo embora. Muita gente está vindo de São Paulo para cá e, para receber este povo todo, muitas árvores serão cortadas.
RC: O que você espera para 2013? O seu principal projeto será o novo CD?
Sebastian: Não. Meu principal projeto não é um projeto, é uma certeza, que é respirar. A consequência de uma boa respiração é a chegada de grandes ideias e inspirações naturais.
RC: Qual foi a maior realização da sua vida?
Sebastian: Neste momento, estar conversando com vocês e receber a sorte de poder estar na capa de uma revista que tem uma energia muito bacana. Muito obrigado.

















