Sem energia elétrica, sem modernidade, sem luxo

FAMÍLIA NATUREZA

 Um jeito simples de levar a vida

Uma casa toda decorada com material reciclado, sem energia elétrica, com banheiro seco, forno a lenha, livros e muito verde. Barulho, só se for da natureza e da pequena Tainá, de 6 anos, que sobe na alta árvore com a maior facilidade do mundo. Ela acena e ri lá de cima, enquanto a paulista Débora Moraes, 28, sua mãe, explica à equipe da REVISTA CIRCUITO por que resolveu viver de uma forma alternativa com sua família e com uma proposta final de não depender em nada do dinheiro. “Queremos viver da troca e de tudo o que a terra nos oferece”, conta ela, que usufruiu, até os 22 anos, da comodidade proporcionada por uma vida moderna.

A moça, que ingressou na faculdade de Biologia na Unesp, tinha um bom cargo e uma vida agitada até engravidar de Tainá e se perguntar se era naquelas condições que gostaria de criar sua filha. Foi quando se afastou de tudo e foi ter uma vida tranquila, em meio à natureza, sem o consumismo desenfreado.

Mãe e filha foram viver no meio da floresta. Para sustento de ambas, vendia pão e doce de banana.

Marcelo Cunha, 30 anos, que é também o pai de Joe, de 9 anos, é o chefe da família e mora no Jardim Japão, em Cotia, há quase 20 anos. Iniciou na vida alternativa com o movimento punk, que apresentou a ele uma proposta diferente de vida. “De que adiantava criticar o sistema, se eu vivia de acordo com ele”, explicou. A partir daí, passou a olhar para dentro de si mesmo e a buscar uma forma melhor de viver.

Ambos se conheceram num curso chamado Casa Sustentável. Débora e Tainá moravam em um Centro Cultural em São Paulo, chamado Quilombaque.

Há um ano morando juntos, vivem da reciclagem e conscientizando as pessoas da importância do processo do reúso, principalmente, do que vem da natureza. No Jardim Japão, ele começou com apenas três ecopontos e, hoje, com o apoio da comunidade, soma 60.

Os três esperam a chegada de um novo membro.
Débora terá o bebê em casa, ao lado da família.

Na entrada da casa da família existe um Espaço Cultural que chama a atenção. São muitos os livros e revistas – frutos de doações ou encontrados no lixo − organizados por temas, que se misturam ao colorido da decoração feita de material reciclado, entre garrafas PET e barro. A porta está sempre aberta para receber bem quem quiser entrar, conhecer ou passar algumas horas por lá.

A ideia é, sem dúvida, promover a arte e a cultura gratuitamente para a comunidade em que estão inseridos, passando sempre uma mensagem de preservação, de vida saudável e solidariedade.

O espaço recebia mais a participação da comunidade, mas, segundo Marcelo, a oferta do mundo moderno dificulta a expansão da cultura lúdica. “Uma criança de 4 anos sabe mexer no computador como um adulto, mas tem medo de subir em uma árvore”, afirma.

O banheiro é confortável, mas não possui ligação com a rede de esgoto.

“De que adiantava eu criticar o sistema, se eu vivia de acordo com ele”

“Nós escrevemos, cantamos e meditamos mais”

Marcelo trabalha próximo a sua casa, separando o lixo produzido pelos moradores do bairro. Muita coisa é reaproveitada pela família e pela comunidade. A ordem é evitar o desperdício e preservar o meio ambiente.

Uma pia no chão é utilizada para a urina. A banheira improvisada serve de boxe para o banho gelado, cuja água vem direto da torneira. No começo, o banho gelado não parecia tão bom. Mas, depois, a família viu que era só uma sensação que passava rapidamente. Nos dias mais frios, Tainá é agraciada com a água quentinha que a mãe esquenta no fogão a lenha. As fezes são feitas em uma latrina. Terra e serragem são jogadas por cima e, quando o latão enche e depois de quatro meses de descanso no sol, a terra pode ser reaproveitada no próprio banheiro.

 O banheiro seco, sem ligação com a rede de
 esgoto

A família gasta, de água, um metro cúbico por mês; em contrapartida, a média de consumo de água de uma família de quatro pessoas, de acordo com a Sabesp, é de 15 metros cúbicos.

Deixar de ter a energia elétrica proporciona à família passar mais tempo junta. “Nós escrevemos, cantamos e meditamos mais”, afirma Débora.

A horta é cuidada por todos, inclusive por Joe, filho de Marcelo, que se divide entre a vida tecnológica e a vida naturalista que o pai proporciona. Hortaliças diversas, tomatinhos da composteira e cebolas são encontrados ali com um colorido especial, sinal de que agrotóxico não faz parte da plantação. Utilizam adubo natural , como cascas de frutas e restos de hortaliças.

 A menina em meio aos livros no espaço cultural
 criado pela família; Tainá foi alfabetizada em
 casa pela mãe

“Até os animais da casa são reciclados”, explica Débora, que resgatou os galos, que eram de rinha, para viverem com tranquilidade em um novo lar.

Pelo terreno, variadas espécies de plantas deixam o ambiente ainda mais harmonioso. Muitas estavam jogadas pelas ruas do bairro.

A limpeza da casa chama a atenção. E muito mais por ela ser toda decorada com o próprio lixo trazido por Marcelo. Aliás, nada do que eles têm é comprado, nem os cobertores, nem as roupas.

Tudo foi encontrado no lixo produzido no bairro.

O fogão a lenha que prepara somente pratos com
produtos provenientes da natureza

Por vezes, Marcelo encontra fogões, geladeiras, entre outros eletrodomésticos, e os deixa na porta de casa, para que algum vizinho se beneficie.

Grávida de cinco meses, Débora terá o filho em casa juntamente com o companheiro Marcelo e os amigos, que ela chama de família. A preparação já começou faz tempo. A jovem faz exercícios respiratórios, uterinos e vaginais (que para ela é um pré-natal) para que o parto seja tranquilo.


“Ensinamos ela a ler e a escrever em casa”

 Tainá e sua diversão predileta: subir em árvores

Enquanto Tainá, que sonha em ser fotógrafa, beija carinhosamente a barriga da mãe, Marcelo conta que é o primeiro ano de Tainá na escola, onde ela ingressou alfabetizada. “Ensinamos ela a ler e a escrever em casa.” A menina, que sofreu preconceito nos primeiros dias de aula, agora é muito bem-vinda pelos colegas e pretende levá-los até sua casa para mostrar como a família optou viver. A ideia, segundo Marcelo, é que conheçam o Espaço Cultural e possam aprender, pelo menos um pouco, de consumo consciente e respeito ao meio ambiente.

Apesar de adeptos ao vegetarianismo, o casal não impõe nada a Tainá, que às vezes ganha doces dos vizinhos ou come carne na escola. “Ela vai seguir o caminho que escolher para si mesma; nós apenas plantamos uma semente dentro dela.”

O CICLO – TRATAMENTO NATURAL DE ÁGUA

A água cinza é um espacinho que reúne toda a água utilizada no banheiro – banho e pia – e cozinha. Por meio de uma tubulação, ela chega a um buraco de aproximadamente 1 metro que contém pedra, areia e plantas. A areia e as pedras auxiliam na filtração, as bactérias se decompõem e as plantas ajudam na remoção de segmentos e nutrientes. O processo de atravessar lentamente o canal com pedras e plantas é o que acaba resultando num bom tratamento. Atualmente, a família trata a água de sua residência e da residência vizinha, que retorna para o consumo.

 

 

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