Lawrence Wahba – O Rei da Natureza

CAPA

Um desbravador do mundo animal

Lawrence Wahba tem histórias emocionantes para contar. E, se deixasse, a equipe da REVISTA CIRCUITO ficaria horas a fio as escutando.

Em dois agradáveis encontros, foi possível conhecer mais do mundo diferente que este paulista de 43 anos escolheu para si: ficar cara a cara com os animais mais incríveis do planeta e capturar, seja em terra ou na água, imagens que revelam a importância de preservá-los.

Lawrence se empolga ao contar cada experiência, dos mergulhos com tubarões às longas expedições pelo Pantanal, passando pelas façanhas mais emocionantes, que vão das profundezas dos oceanos às savanas africanas.

Vê-lo em ação significa roer as unhas e esperar com ansiedade pela cena seguinte. Nada é previsível, apesar da qualidade de cada imagem, que pode demorar horas ou dias para ser produzida. Nenhum bicho é provocado, e saber esperar é uma dádiva divina de quem quer conviver com os animais sem desrespeitar o espaço deles. Lawrence tira a tarefa de letra. Suporta os ataques de pernilongos, o calor de 40 graus – ou o frio de rachar a pele –, mas não arreda o pé sem ver aquilo que realmente foi procurar.

Seu estilo é calmo e despojado, resultado da vida humilde que aprendeu a ter com a natureza, com os bichos, os ribeirinhos e os espetáculos naturais perfeitos, de doer os olhos.

Apesar da serenidade, não é menos falante que qualquer pessoa vivida, com uma bagagem profissional inspiradora.

Pai de dois filhos, Lorenzo e Luca, e admirador confesso das belezas da Granja Viana que ainda resistem ao crescimento acelerado, o mergulhador e cinegrafista de natureza comemora seus 20 anos de carreira, sendo quase metade deles desbravando o mundo em plena contemplação da natureza.

Algumas pessoas o acham maluco. Outras, um aventureiro.

Resumindo, ele é mesmo um apaixonado pelo que faz.

RC: Mergulhador e cinegrafista de natureza. Como e quando você se descobriu nisso?
LW:
Foi fácil e natural porque trago isso desde a infância. Meus pais sempre gostaram de natureza, então viajávamos muito. Eles alugavam uma casa sem energia elétrica numa praia deserta chamada Praia das Tartarugas, em Búzios, onde eu passava as férias de verão inteiras. Comecei a mergulhar com 7 anos de idade, e minha grande influência foi meu tio, que era fotógrafo e diretor de vídeos, porém não da área de meio ambiente. Foi ele que me levou ao mar com esta “maquininha” de capturar imagens, e fiquei obcecado por juntar estas duas paixões: a cinegrafia e a natureza.

RC: E como tudo se profissionalizou?
LW:
Com 14 anos, fiz meu primeiro curso de mergulho. Com 16 anos, comecei a trabalhar com o meu tio, com vídeos institucionais. Com 18, passei a dar aula de mergulho e a filmar meus alunos. Então vieram as primeiras matérias para a televisão. Entrei para a faculdade de Cinema e consegui juntar as duas paixões. Com 20 anos, tranquei a matrícula do curso e passei um ano viajando o mundo de mochila. Fui guia de mergulho no Mar Vermelho do Egito e em Cozumel, no Caribe. Voltei para o Brasil, continuei a faculdade e comecei a me aventurar em grandes expedições. Outra grande inspiração foi o Jacques Cousteau, documentarista, cineasta e oceanógrafo. Quando criança eu já assistia aos vídeos dele e sonhava em fazer o que ele fazia.

RC: Então você trabalha com isso há muito mais que 20 anos.
LW:
Eu conto a partir da minha primeira grande expedição, em 1992. Foi minha primeira viagem para um trabalho profissional. O projeto chamava-se Crossing American Coast. Nossa equipe era formada por seis amigos jovens, e nós viemos de Los Angeles a São Paulo de carro. A viagem durou três meses e meio, e atuei como cinegrafista.

No ano seguinte, a aventura foi com outro grupo de amigos que davam aula de mergulho, assim como eu, na região de Paraty. Reformamos um barco de madeira e fomos de Santos até as Ilhas Canárias, na África, em quase quatro meses de viagem. Filmei essa viagem e ela virou um documentário. As coisas foram simplesmente acontecendo. Era um sonho, e fui naturalmente trabalhando na direção dele. Tive sorte de ter dado certo.

Lawrence Wahba filmando na savana
(Foto divulgação)

RC: E como aconteceu o ingresso na televisão?
LW:
Minha primeira matéria para a televisão aconteceu em 1991. Eu era instrutor de mergulho em Paraty, filmava os meus alunos e apareceu uma equipe da TV Cultura que estava na região e não possuía cinegrafista submarino. Aí rolou o primeiro convite para uma filmagem. Na mesma semana, a Record estava fazendo uma matéria sobre aula de natação para bebês e me chamou para filmar. Percebi que era um nicho de mercado, porque ninguém fazia imagens subaquáticas no Brasil. Em poucas semanas, estava fazendo matérias para a Globo, o SBT e outras emissoras. O próprio Crossing American Coast foi um grande cartão de visita, porque cruzamos as Américas e mandávamos as imagens para os patrocinadores. Quando cheguei ao Brasil, minhas imagens estavam em diversas emissoras.

Os animais me ajudaram a ser mais humano.

Ele com o lobo – imagens da série Reino Animal
(Foto: Cristian Dimitrius)

RC: Você teve contrato com a Globo?
LW:
Por muitos anos fui freelance. Até 2004, tinha feito mais de 300 matérias para a televisão e vários documentários. Em 1995, fiz a minha primeira série, chamada Em Busca dos Grandes Tubarões. Na época, vendi meu carro para bancar a produção e vendi o projeto para a GNT, que tinha uma parceria com o Fantástico. Depois, fiquei um bom tempo fazendo o Eliana & Alegria, na Record. Ganhei um festival superimportante de imagens de natureza na França e fui parar no Faustão, onde fiz algumas participações. Em 2004, a Record lançou o Domingo Espetacular e me contratou por um ano. Fiz 52 matérias nesse período. Gravei 16 matérias e 36 foram realizadas com meu banco de imagens. Toda semana eu colocava uma matéria de 8 a 12 minutos no ar. O Domingo Espetacular era no mesmo horário que o Faustão, e assuntos relacionados à natureza dão ibope. Quando venceu meu contrato na Record, em 2005, a Globo me convidou para trabalhar.

Amor pela natureza e pela cenografia
(Foto: Cristian Dimitrius)
 
 

RC: E era um contrato de exclusividade?
LW:
Fiquei 7 anos e meio na Globo com um contrato que me permitia trabalhar para a TV a cabo. Então, além de estar lá, produzia conteúdo para a Discovery, Animal Planet e National Geographic, que é uma grande parceira minha; trabalho para eles desde 1999. Toda essa bagagem profissional me permitiu ter um networking internacional. Eu diria, sem falsa modéstia, que sou um dos principais documentaristas de natureza do Brasil. Faço trabalhos também para a BBC e a TV alemã.

RC: Você já caiu em alguma armadilha da natureza?
LW:
Já caí, sim. São anos trabalhando com a natureza, e eu lido com os animais mais perigosos que existem. Gravei mais de 50 espécies de tubarões sem utilizar gaiola de proteção. Mas nunca sofri um acidente, e espero continuar assim. Meu trabalho é marcado pelo respeito aos animais e à natureza. Eu tento chegar o mais perto possível sem criar uma situação de risco. Já passei por vários sustos. Uma vez estava em Botsuana gravando, para o Faustão, uma matéria sobre elefantes, e no parque em que estávamos tinha um elefante problemático. Cada animal tem a sua personalidade, e esse era muito agressivo com outros elefantes e, principalmente, com os seres humanos. Ele era tão agressivo que a direção do parque já havia requerido uma autorização do governo de Botsuana para sacrificar o bicho. Então, durante todo o passeio, o safári, a filmagem, era aquela tensão pelo medo de encontrar o elefante. No fim do dia, encontramos uma família de elefantes muito mansa; mãe e filhotes eram muito tranquilos. Estávamos fazendo a filmagem quando o tal elefante apareceu no mato. O guia pediu para que eu ficasse imóvel com a câmera. Vi um animal de quase 4 metros de altura vindo em nossa direção, galopando, balançando a cabeça, gritando e parou a três metros da gente. Ele deu alguns gritos, meia-volta e seguiu para o mato. Se ele resolvesse bater no jipe, eu estaria morto.

RC: Você prefere água ou terra?
LW:
Eu sou apaixonado por mergulho, e comecei com isso. Por muitos e muitos anos, preferi a água. Hoje, não tenho preferência por água ou terra. A preferência é ter acesso ao animal que quero trabalhar e, sem dúvida, alguns animais motivam mais. O ano passado, por exemplo, trabalhei muito com a onça. Fiquei sete semanas, do nascer ao pôr do sol, em busca de onças.
O registro de animais fora da água foi uma evolução natural do meu trabalho.

Com os suricatos, em Botsuana
(Foto: Cristian Dimitrius)

RC: Como são as expedições? Em quantas pessoas vocês vão?
LW:
Nas viagens, a gente procura ir com equipes bem pequenas para não perturbar os animais. Geralmente, somos dois e mais um guia local. Quando é um filme que tem apresentador, precisamos de mais uma pessoa para mergulhar comigo, câmera fora d’água, operador de som e um produtor. Atualmente, toco um departamento de natureza na Bossa Nova Films, uma das cinco maiores produtoras do Brasil.

RC: Você viajou o mundo. Qual o lugar que mais te comoveu?
LW:
O Pantanal, para mim, é um dos lugares mais lindos do planeta. No começo, eu chegava lá e era só água e barranco. Depois de quatro expedições, passei a fazer parte do lugar. Conheço cada curva, cada rio de algumas regiões do Pantanal. Foi uma descoberta fascinante. Hoje é o local ao qual mais gosto de ir, e fico feliz da vida quando tenho algum trabalho por lá.

RC: Esse contato com o mundo animal e a natureza proporcionou o que para sua vida pessoal?
LW:
A natureza proporciona humildade, e começamos a ver o quanto somos pequenos. E percebo isso, principalmente, no meio em que trabalho, que é a televisão. As pessoas acham  que são melhores que alguém porque aparecem na TV. É um mundo de ego e glamour que não é nada perto da situação de estar em contato com a natureza e aprender a enxergar a beleza nos pequenos momentos. Nos instantes em que o mar está grande ou o bicho bravo, você percebe que realmente somos todos iguais. Os animais me ajudaram a ser mais humano.
Outra coisa é o fascínio de conhecer quantas formas maravilhosas de vida existem em nosso planeta e representam o meio ambiente. Acho que os animais, de certa forma, transformam-se em embaixadores da natureza.

RC: Então você não gosta de glamour, é isso?
LW:
Tanto faz meu rosto estar na capa de uma revista ou aparecendo na televisão. Agora, se é para divulgar o meu trabalho e sensibilizar as pessoas para que preservem a natureza e os animais, aí tudo bem. Os animais se tornam embaixadores da natureza, e eu embaixador dos animais. Quero apenas retratar os animais e levar a imagem até a casa das pessoas, dando uma finalidade muito mais nobre para a televisão do que os conteúdos vazios que tanto aparecem.

Mergulho no Tahiti (Foto: Marcelo Skaf)

RC: Qual a diferença entre o animal e o ser humano?
LW:
O animal é mais previsível que o ser humano. Ele age de acordo com determinados padrões de comportamento. Quando você começa a conhecer esses padrões, deixa de ter medo dele. A onça não vai te atacar se você não colocá-la numa situação que a faça te atacar. Já com o ser humano você nunca sabe. Se você pega um cachorro na rua, esse animal será grato a você até o fim da vida. Em compensação, às vezes, você  ajuda uma pessoa e no dia seguinte ela te dá as costas. Somos muito mais imprevisíveis e perigosos que qualquer animal.

RC: Conte sobre seus filhos. Você gostaria que eles dessem continuidade ao seu trabalho?
LW:
Meu pai brinca dizendo que eles vão trabalhar na bolsa de valores (risos). Vou apoiá-los em qualquer decisão, mas estou plantando a sementinha. Dedico-me a ensiná-los a respeitar a natureza, as outras formas de vida, as outras pessoas. Aprendendo isso, o que fizê-los felizes será o caminho deles. Desde que não sejam desmatadores ou capitalistas selvagens, apoiarei no que for preciso. Eles ainda são muito novos para projetar algo. O Luca tem 5 e o Lorenzo tem 8 anos. Como nesta idade as crianças veem os pais como um herói, eles dizem que serão “filmadores de bichos”. Dentro da simplicidade deles, é o que querem fazer. Mas não faço questão de que sigam minha profissão, e sim que tenham os valores certos
e amor pela natureza.

RC: Estar perto da natureza foi o que o fez mudar para a Granja?
LW:
Quando eu me mudei para a Granja foi uma decisão consciente. O Lorenzo tinha 6 meses. Vim para cá porque aqui era um lugar que me permitia estar perto de São Paulo e poderia ensinar meu filho a andar com o pé no chão, pegar fruta do pé e criar animais em casa.
Na medida em que eles cresceram, eu expandi isso. Meus filhos já estiveram em Fernando de Noronha, Bonito, Pantanal do Sul, Pantanal do Norte, Chapada dos Guimarães e muitos outros lugares fascinantes. Então, vou levando os dois para que tenham cada vez mais contato com a natureza e com os animais.

“A natureza proporciona humildade, e começamos a ver o quanto somos pequenos”

RC: E qual é a sua relação com a região atualmente?
LW:
Na verdade, minha relação com a Granja é antiga. Em 1984, quando eu tinha 15 anos, meu melhor amigo do colégio morava na Granja. Eu vinha sempre com ele para cá de ônibus e andava pela São Camilo, ainda de terra. Era um local bem mais alternativo. Depois, vim morar aqui e percebo que a região está crescendo rápido demais. Isso me incomoda um pouco. A gente sai de São Paulo e a impressão que dá é que São Paulo vem até a gente. Se por um lado a região ganha em termos de conforto e estrutura, por outro perde em qualidade de vida. A Raposo está impraticável. O que eu mais curtia fazer aqui era passear com os cachorros e receber os amigos. O bacana da Granja é o modo de viver, em comunidade.

RC: Pretende voltar?
LW:
Estou num processo de decisão se volto ou não. Quando me separei, fui para São Paulo para ficar mais perto do meu trabalho. Inicialmente, meus filhos dormiam uma vez por semana comigo, mas agora eles moram comigo e estudam na Granja. A vida deles é na Granja Viana.

RC: Conte sobre os próximos projetos.
LW:
A série Reino Animal: Diários de Lawrence Wahba é dos meus diários de viagem, fruto de uma parceria que envolveu a National Geographic, a Globo Internacional e a Bossa Nova Films. São dez episódios de meia hora e cada um tem um tema, e divido em três expedições. Uma boa parte do material é de arquivo pessoal, e toda a série terá a minha narração. Algumas matérias especiais foram gravadas e unidas com imagens inéditas do meu acervo.
O outro projeto é, sem sombra de dúvida, a maior produção de documentário de natureza da história do Brasil, que desenvolvi com o naturalista brasileiro Haroldo Palo Júnior, que há 40 anos filma e fotografa o Pantanal. Nós apresentamos o projeto para a National Geographic, que financiou 50%. Os outros 50% foram financiados pelo governo de Mato Grosso. São três documentários sobre o Pantanal que, para serem produzidos, necessitaram de 33 semanas. Eu fiquei 16 semanas no Pantanal e a equipe do Haroldo ficou 17. Trabalhamos exaustivamente com um networking que envolvia cientistas, guias, donos de fazenda e pesquisadores de várias áreas para conseguirmos retratar os segredos do Pantanal. As pessoas poderão ver desde uma onça acasalando até uma sequência de filmagem da eclosão dos ovos de um jacaré do Pantanal. A trilha sonora foi composta pelo maestro Alê Guerra e 23 músicos da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). Mergulhei no tema. Filmamos em área não cartografada do Pantanal. Desbravamos áreas desconhecidas; encontramos um pedacinho de área no Brasil em que nunca ninguém mergulhou.

REINO ANIMAL
Diários de Lawrence Wahba será lançado no próximo dia 15 de setembro, às 22h30, na NatGeo, da Fox International Channels

Lawrence é um dos embaixadores no Brasil da renomada ONG Sea Shepherd (criada em 1977, pelos fundadores do Greenpeace).
Fez mais de 3.500 mergulhos que geraram o mais completo banco de imagens submarinas da América Latina. Seus registros de animais raros- como a foca siberiana de água doce, os ariscos cães selvagens africanos, além de 50 espécies de tubarão, foram premiados em festivais internacionais como Antibes (o mais importante do mundo para filmes subaquáticos) e Amazon Film Festival.

Para aguentar o ritmo do trabalho e manter a forma física, Lawrence pratica natação, musculação, pilates e yoga.

Lawrence é autor do livro “Dez Anos em Busca dos Grandes Tubarões”. O próximo livro será lançado em 2013.

 

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