Vícios

Marcos Sá escreve sobre o vício em smartphones.

Você fuma? Bebe? Joga jogos de azar e apostas? Utiliza drogas, lícitas ou ilícitas? Se você respondeu não a todos as perguntas acima, podemos considerar que você não tem vícios, ou seja, não é viciado em coisa nenhuma, certo? Ledo engano. Você é um viciado, sim, só não descobriu ainda, por negligência ou porque não lhe contaram a verdade. Sabe em quê? No smartphone. Segundo o pai dos burros, vício vem do latim “vitium”, falha ou defeito, que significa um hábito repetitivo que degenera ou prejudica o viciado e aos que com ele convivem, ou ainda, dependência física ou psicológica que faz alguém buscar o consumo excessivo de algo ou de uma substância entorpecente. Considerando os vícios mais conhecidos, lembro que o cigarro durante anos não foi considerado vício. Era símbolo de status, prazer e ninguém se considerava viciado, pois a propaganda nos induzia a pensar nele como algo que fazia parte do nosso estilo de vida. Ele estava nos filmes na TV, na música e até na boca dos médicos, sendo o mais viciante dos vícios e não considerado maléfico. Hoje, o cigarro é execrado e nos faz pensar como nos deixamos escravizar por algo tão nocivo. Voltando à pergunta acima, que você respondeu não, esclareço, você é viciado, sim, pois o brasileiro usa o aparelho por dia, em média  3,10 horas, tira do bolso o celular 221 vezes, recebe 64 notificações e faz em média 2600 toques no aparelho, segundo a empresa de pesquisas Scout Research. O smartphone já vicia mais gente e de forma mais intensa do que o cigarro. São 4 bilhões de pessoas, ou 52% da população mundial de acordo com a empresa Ericsson. Vamos sendo dominados por esse vício onipresente, sem perceber, tal como nas décadas passadas com o cigarro, o quão viciante e nocivo são esses diabólicos aparelhinhos. O que pouca gente sabe é que por trás dos apps, e das técnicas da internet, os gigantes da tecnologia fazem um esforço consciente para nos manipular, usando recursos da psicologia, neurologia e até de cassinos, o que os torna tão viciantes como os caça-níqueis, que são os jogos que mais causam dependência, viciam quatro vezes mais rápido que outros tipos de aposta. Até um fenômeno bizarro surgiu e tem nome: síndrome da vibração fantasma, em que a pessoa sente o aparelho vibrar, sem que o celular tenha feito isso. O vício é tão forte que oito em cada dez motoristas fazem uso do celular enquanto dirigem, embora 90% deles reconheçam o quanto é perigosa essa prática. A síndrome de abstinência do celular ou nomofobia já lota os consultórios dos terapeutas de plantão. Estamos às voltas com uma epidemia da distração que causa ansiedade, depressão e déficit de atenção. As pessoas nas ruas andam mergulhadas num universo virtual paralelo, fogem da interação com o mundo real e se isolam tal como walking deads vivos, mas com seus cérebros carcomidos pela tecnologia predadora. Quem tem crianças e adolescentes para educar, sabe perfeitamente do que se trata. Como lidar com essa geração futura? Como manter seu filho longe das armadilhas e vícios do mundo virtual? Na virtude, a dor vem antes do prazer, no vício, o prazer vem antes da dor. Smartphones, algoritmos, games, internet, Google, fake news, Wtzp, apps, joguinhos inocentes, Tinders, FB, Instagram, avatares, youtubers, influenciadores, atendimentos (URA) robotizados, links, leeds etc. Tim Bernes-Lee, Steve Jobs e Bill Gates, gênios da tecnologia, quando nas suas garagens criaram esse mundo virtual, devem estar com a mesma sensação de Albert Einstein e Robert Oppenheimer que, com suas descobertas, acabaram contribuindo para a invenção da bomba atômica.

 


Marcos Sá é consultor de mídia impressa, com especialização em jornais, na Universidade de Stanford, na Califórnia, EUA. Atualmente, é diretor de Novos Negócios do grupo RAC de Campinas.

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