Superação de Limites

COMPORTAMENTO

QUANDO VOCÊ ACHA QUE NÃO CONSEGUE, A VONTADE DE SER FELIZ SUPERA QUALQUER CONDIÇÃO

A vida é feita de encontros e desencontros, e encontrar duas pessoas tão especiais não foi fácil. Ambas possuíram, e ainda possuem, uma capacidade incrível de superar seus limites quando colocadas em situações que impulsionam a vontade de conquista. São histórias completamente diferentes, mas com fi nais parecidos, que levam a acreditar que sempre há uma oportunidade para elevar a autoestima e seguir em frente, em busca de mais um desafi o a ser vencido.

PEDALADAS DA ALEGRIA

Ana Lúcia L. V. Falco não tem um corpo atlético, curvas torneadas e jamais acreditou que seria capaz de pedalar por 20 dias consecutivos pela Europa, trocando diariamente de cidade. No entanto, a dentista granjeira aceitou o desafio e, com o incentivo e companhia da família, arrumou as malas e colocou o pé na estrada, ou melhor, no pedal.

“Passei pela Suíça, Alemanha e França pedalando. Parecia cenário de filme. Conheci lugares lindos”, conta ela, que foi com o marido, Antônio Carlos, os filhos, um casal de primos e amigos. A tecnologia ajudou, e muito. Antes de seguir viagem, os ciclistas traçaram roteiros, prepararam mapas e puderam conhecer um pouco de cada cidade e povoado que encontrariam pelo caminho. A rota era escolhida por dia, e nada assustava a novata esportista. O grupo verificava a altitude e as características do percurso antes de ganhar o mundo sobre a bicicleta. “Nosso dia a dia era uma caixinha de surpresas”, afirma Ana Lúcia, que, antes da viagem, tentou fazer academia para adquirir condicionamento físico, porém, não conseguiu conciliar os horários com a puxada rotina da profissão. Mesmo assim, concluiu o percurso de bicicleta sem nenhum problema ou desgaste físico.

Descobri, durante esta viagem, valores
como coletivo e confiança

No trajeto ciclístico, pessoas que se deparavam com o grupo ofereciam produtos como forma de demonstrar o quanto estavam felizes em vê-los ali. “Descobri durante esta viagem valores como coletivo e confiança; sou outra pessoa. Sinto-me melhor por dentro e por fora”, diz.

Ana percebeu que na Alemanha, por exemplo, a bicicleta é um meio de transporte popular e que isso acarreta em uma melhor qualidade de vida para quem vive lá e pode contemplar de pertinho a paisagem deslumbrante que o país oferece. Além disso, todos os trens, além de serem supercharmosos, possuem vagões para bicicleta como incentivo ao esporte.

Este foi o terceiro passeio que o grupo fez, mas é o primeiro dela, que nunca havia ido por acreditar que não teria condições físicas de acompanhar o circuito. Hoje, ela reúne com orgulho aproximadamente 12 mil fotos da aventura.

Este ano tem mais. O grupo já está escolhendo outra região da Alemanha para fazer o passeio, que acontecerá em julho, no verão, e Ana está animadíssima. “Eu tinha preconceito do país e desmistifiquei isso. A Alemanha é jovem e cosmopolita, com um povo amoroso e alegre”, declara a dentista, que se prepara para mais 20 dias de aventura.

 


 

A MÚSICA QUE CURA O CORAÇÃO

Douglas Jericó, com 30 anos recém-completados, não leva uma vida normal, como qualquer rapaz da sua idade. Ele teve uma lesão medular após uma queda de um muro, que o privou dos movimentos do corpo. Não mexer os braços, as mãos e as pernas e encarar esta nova realidade foi uma difícil tarefa, a começar pela dependência de outras pessoas para fazer as atividades cotidianas. Antes do acidente, Douglas morava sozinho, vivia a vida intensamente e era independente.

É bonito de ver a gratidão que o rapaz tem pela família, que hoje vive em função de sua tetraplegia. “Meus pais me fazem ver o mundo de uma maneira otimista. Minha volta para casa foi muito complicada; tenho certeza de que nós três nos abalamos, nos machucamos, mas sabemos que tudo é um grande processo de evolução”, explica.

Ele não pode mais tocar suas canções prediletas no violão, mas deu um espaço maior à composição e ao canto, duas grandes paixões que exerce desde os 7 anos de idade. Durante as longas viagens com seus pais rumo a Goiânia, à fazenda de seu avô, as florestas, cercas e laranjais já eram inspiração para ele e a irmã arriscarem um repente.

Até no silêncio encontro música.
Ela salvou a minha vida.

Nos seis meses em que ficou no hospital, de 9 de maio de 2009 a 6 de novembro de 2009, a música não existiu para ele. “Foi uma fase de reflexão. Nesse período, foram poucas as vezes que pensei em música; minha mente vagava por outros universos de abstração da realidade que se unia à ilusão que os medicamentos cau- savam”, afirmou ele. Mas a realidade foi outra logo que saiu da cama. Assim que voltou para casa, Douglas resgatou a música para a sua vida e fez uma letra chamada O Falso Adeus das Falsas Horas. Ele transformou a música em uma arma que o ajuda a fugir da realidade e a estar mais próximo do mundo. “Até no silêncio encontro música. Penso nela o tempo inteiro. Existe uma tristeza que me ronda, e a música é um núcleo que me separa disso e bloqueia tudo o que é ruim. Ela salvou minha vida e traduz o que sou”, conta.

Douglas Jericó é administrador de Banco de Dados na IBM, onde trabalha desde 2000. É formado em Processamento de Dados e possui cursos de Sistemas de Informação e Tecnologia e Análise de Desenvolvimento de Software. Depois do acidente, começou a atuar em administração de banco de dados, pela pouca necessidade de digitação, apesar de isso não ser mais uma dificuldade para ele. “Meu processo de digitação é um pouco mais lento que o comum. As pessoas usam todos os dedos, e eu utilizo os olhos”, explica. Ele trabalha utilizando um software chamado Headmouse, que detecta seus olhos e lhe permite fazer absolutamente tudo. É um software gratuito, disponibilizado na internet, que consiste em um teclado virtual com o qual as pessoas com incapacidades motoras têm acesso à tecnologia.

O músico namora há um ano e cinco meses uma linda jovem chamada Taise, e possui cerca de 800 composições, sendo 100 produzidas após o acidente.

 

 

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