Grafite e a evolução dos olhares

A arte, antes vista como marginal, ganha espaço conceituado em grandes exposições.

É praticamente inviável falar sobre a história do grafite e não citar os desenhos rupestres deixados em cavernas durante o período Paleolítico.

De acordo com a tese alguns historiadores, o termo pré-história tem uma conotação errônea, pois não existiu uma história anterior a hoje, vivemos uma continuação. Para alguns estudiosos do assunto, o que realmente separa períodos do tempo foram as formas que a raça humana encontrou de se comunicar.

Enquanto o hominídeo que viveu há 3 milhões de anos a.C possuía pouca ou nenhuma habilidade em comunicar-se, na era Paleolítica o Homem de Neandertal organizava-se em grupos, produzia utensílios e armas, e principalmente comunicavam-se por meio de ruídos e principalmente por pinturas rupestres em  cavernas. Através destes desenhos, eles marcavam o tempo, trocavam experiências e transmitiam mensagens e sentimentos.

Hoje em dia, a forma de se comunicar e as ferramentas mudaram, mas a história é a mesma. Por meio de desenhos em muros, grafiteiros e artistas plásticos contam o seu cotidiano, protestam ou simplesmente produzem arte, e mostram que além da evolução da prática, também há a evolução dos olhares, que deixam de ver os indivíduos como marginais e passam observá-los como conceituados membros de uma classe que ganha espaço em grandes museus do mundo.

“Com o grafite construí uma família, comprei casa, carro e levo uma vida digna, e sobretudo, o grafiteiro não é mais visto como o marginal depredador do espaço público, e sim como um produtor de arte que embeleza a cidade”, declara Julio Arts, 34, morador da cidade de Carapicuíba, que fez seu primeiro trabalho aos 14 anos de idade, em muros de uma escola de natação.

E falando em Carapicuíba, de todas as cidades da região, sem dúvida, o município a maior concentração de grafiteiros. Infelizmente o que mais se percebe na cidade é o câncer da pichação, mas é difícil encontrar uma única rua da cidade, principalmente nos bairros das Cohabs, que não se encontre grafites.

Entre tantos talentos da cidade, outro deles é o artistas plástico JP Possos, que entre mais de 3 mil grafiteiros, foi um dos 22 escolhido pelo Metrô de São Paulo para estampar as estações subterrâneas.

“Quando me escrevi para o concurso foi mais por uma brincadeira, pois estava decidido ir para Londres mostrar meu trabalho. Infelizmente o artista plástico é pouco valorizado aqui, e na maioria dos casos só ganha notoriedade quando faz sucesso lá fora”, declara JP, que tem como influência sua tia, Iza Costa, artista plástica de traços fortes.

Julio ressalta que a região tem muito grafiteiro, porém muitos apenas copiam, sem produzir nada novo.

“Um artista de verdade tem que criar, não apenas copiar. O que mais vemos pelos muros da cidade são apenas copia, e isso não atrela valor algum a arte”, diz.

E o mais importante, o verdadeiro artista mostra que a arte evolui, assim como o homem primitivo evoluiu.

Artigo anteriorEmpreendimentos sustentáveis
Próximo artigoO2 Filme: Quando o cinema brasileiro passou a fazer sentido