Todo mundo sabe que Leonardo Da Vinci é a epítome do homem renascentista. Ele foi o maior gênio que já existiu. Foi engenheiro, arquiteto, cientista, astrólogo, matemático, inventor, anatomista, botânico, poeta, músico e pintor. Além de tudo isto, Da Vinci era um perfeccionista. Durante sua vida inteira, de 15 de abril de 1452 a 2 de maio de 1519, em 67 anos, produziu 20 pinturas, sendo que somente 15 delas sobreviveram até os dias atuais. Por isso encontrar uma obra desconhecida do gênio é como descobrir um novo planeta.
Salvator Mundi, a mais nova obra de arte atribuída a Leonardo Da Vinci, foi possivelmente pintada para Luís XII da França e sua consorte, a Duquesa da Bretanha. O quadro, provavelmente, foi encomendado por volta de 1500. Posteriormente, foi detido por Carlos I da Inglaterra e mantido em sua coleção de arte particular até ser leiloado pelo filho do Duque de Buckingham e Normandia, em 1763. A obra reapareceu em 1900, quando foi comprada por um colecionador britânico, Francis Cook, 1o Visconde de Monserrate. A pintura foi danificada por tentativas anteriores de restauração e sua autoria não foi esclarecida. Os descendentes de Cook venderam a obra em um leilão, em 1958, por apenas £45! Em 2005, a pintura foi adquirida por um consórcio de comerciantes de arte que incluía um especialista em antigos mestres da arte. A obra, então, estava com uma camada de tinta espessa por cima da superfície original, de modo que parecia uma cópia. Antes da restauração, era descrita como “um naufrágio, sombrio e tenebroso”. Em 2013, a pintura foi vendida ao colecionador russo Dmitry Rybolovlev por $ 127,5 milhões.
Salvator Mundi chacoalhou o mundo da arte ao ressurgir, mas sua venda, no último dia 15 de novembro de 2017, por $ 450,3 milhões (cerca de R$ 1,5 bilhão), fez manchetes no mundo inteiro. A pintura foi vendida pela Christie’s, em Nova York, estabelecendo um novo recorde mundial de pintura mais cara já vendida. O príncipe saudita Bader bin Abdullah foi quem arrematou a obra. Ele é amigo do herdeiro do trono saudita, Mohammed bin Salman. O quadro de Da Vinci será exposto na filial do museu do Louvre, em Abu Dhabi, recentemente inaugurado nos Emirados Árabes Unidos.
Salvator Mundi é uma pintura de Jesus Cristo como o Salvador do Mundo, vestido em trajes renascentistas, com uma esfera de cristal em uma mão e a outra mão fazendo um gesto de bênção, apontando para o céu. Os cifrões ofuscam a beleza e todo o passado conturbado de restaurações problemáticas – que arranharam o rosto e cabelos e, provavelmente, alargaram o pescoço da figura – e muitas dúvidas que rondam a sua autoria.
O mundo de estudiosos ainda está dividido. Alguns dizem que a obra foi pintada por um dos pupilos de Leonardo, Giovanni Boltraffio. A relação fundo e figura tem um aspecto um tanto desconjuntado. No lugar da leveza enigmática das obras mais conhecidas de Leonardo Da Vinci, onde a pele de suas figuras e a paisagem ao redor se fundem numa espécie de sopro, o quadro mais caro da história tem um fundo sólido e escuro. Outros dizem que a obra foi tão alterada durante restaurações que seria impossível verificar sua autenticidade.
Os opositores também têm seus argumentos. Em 2008, a obra foi estudada no museu Metropolitan, Nova York, por curadores e outros profissionais consagrados de lá. Depois foi levada para a National Gallery, em Londres. Pesquisadores do trabalho de Da Vinci também foram convidados para participar das avaliações. Todos concordaram que foi, sim, Leonardo quem pintou o Salvator e que esta é a obra matriz que inspirou todas suas outras versões feitas por outros artistas.
Uma das maiores evidências encontradas, que provam que a obra é de Da Vinci, é a presença de pentimenti, ou seja, vestígios de alterações executadas em uma pintura enquanto a mesma esteja em andamento. Uma cópia não teria alterações, pois seguiria um modelo prévio. A posição da mão direita foi crucial no processo de autenticação. Leonardo teria pintado o dedão alguns centímetros mais atrás, mas não gostou do resultado, tendo pintado por cima. As imagens obtidas hoje por meio de raio X mostram isso mesmo e, segundo especialistas, o falsificador não só não saberia que havia outro desenho escondido debaixo do fundo, como não o conseguiria replicar. Os dois dedos juntos, semicruzados, acompanhados do polegar, é um gesto que simboliza o ato de benzer que começou a ser utilizado nos primórdios do cristianismo.
O símbolo remete à cultura romana, a um gesto que era associado a alguém que queria falar. Depois do Edito de Milão, em 313 A.C., quando Constantino despenalizou o cristianismo, esse movimento ganhou popularidade e, em pouco tempo, foi assimilado pela cultura cristã. Outra prova seria a presença do “Número de Ouro” e da “Divina Proporção”, espalhados por toda a obra. O número phi (Φ = 1,618034…), também chamado número de ouro, está por trás de importantes obras da arquitetura clássica, em pinturas e esculturas renascentistas e na natureza, incluindo o corpo humano. Um número mágico que organiza o universo em uma mesma proporção, chamado de a divina proporção. Leonardo Da Vinci usou muito a divina proporção em suas obras. Em seus estudos de anatomia, Da Vinci constatou que nada na natureza obedece tanto a divina proporção quanto o corpo humano. A partir desta conclusão, desenhou o icônico Homem Vitruviano.
A obra apresenta, ainda, outras fortes características do artista. A ambiguidade no rosto de todas as obras do artista também está presente nesta. Olhando para este rosto de Jesus Cristo, é difícil identificar um traço masculino vincado. Teoricamente, estas feições mais andróginas foram concebidas de propósito. Ao juntar traços masculinos com femininos o autor pretende colocar ambos os sexos em pé de igualdade, dando a crer que ambos estão em união perante o poder divino.
A obsessão com detalhes na roupa e cabelos da figura, as técnicas de sfumato e o chiaroscuro, por ele bastante difundido, e o olhar misterioso da figura, bem parecido com o olhar da sua outra obra-prima, Mona Lisa. Pesquisadores acreditam que esta obra foi pintada um pouco antes da Mona Lisa, mas a técnica e os pigmentos usados em ambas são os mesmos. O uso da tinta azul (lápis-lazúli) era raro naquela época e está presente, também, em ambas as obras.
Argumentos à parte, a obra já é considerada o “Cálice Sagrado” da arte. Mas o que, ao certo, faz esta obra tão relevante? Além de ter sido criada pelo maior gênio da história da humanidade e ser 1 de 15 obras dele ainda existentes, a sua importância histórica, seguramente. Basta ver o seu percurso desde 1500, quando foi concluída.
Vamos Observar
Título: Salvator Mundi
Autor: Leonardo Da Vinci
Data: circa 1500
Técnica: óleo sobre madeira
Dimensões: 45,4 cm x 65,6 cm
Por Milenna Saraiva, artista plástica e galerista, formada pelo Santa Monica College, em Los Angeles














