As dúvidas sobre manter ou não os filhos pequenos na escola durante a pandemia é uma das preocupações de muitas famílias nesse período. Crianças de 4 a 6 anos têm a obrigação legal de estarem matriculadas na escola. Mas, e as menores? Considerando, inclusive, fatores econômicos, muitos pais se perguntam se realmente vale a pena manter os pequenos em instituições de ensino. Para falar sobre isso, Sueli Marciale, psicopedagoga e diretora assistente do Colégio Rio Branco – Unidade Granja Vianna, faz observações que podem ajudar na decisão e a elucidar dúvidas comuns.

Imagem ilustrativa, de antes da pandemia

Educação fluida: presencial e online
“Se considerarmos reflexões trazidas por Zygmunt Bauman sobre a complexidade do mundo de hoje, a fluidez e rapidez das informações, as incertezas e a necessidade de desenvolver várias competências para lidar com esse cenário, entendemos que a escola vem cumprindo seu papel de preparar os alunos nesse sentido.
A escola, seja no ambiente virtual ou presencial, continua sendo um espaço de socialização, de trabalho com valores como empatia, solidariedade e convivência democrática.”

Novas configurações em um ambiente de incertezas
“Ao olharmos com mais atenção para a educação infantil, em função das demandas sociais desde 1996 (LDB, Lei 9.394/96), vemos o quanto tem se redefinido como parte importante da educação básica, pois traz a concepção da criança como sujeito potente, garante o direito à educação a partir dos 4 anos, porém não exclui a possibilidade de crianças de 2 ou 3 anos de idade frequentarem as escolas.
A criança, como sujeito potente, explora, experimenta, comunica, transforma, cria conhecimentos a partir da relação com o entorno e da convivência com outras pessoas, além do ambiente familiar. E quando pensamos nesse cenário de isolamento social, essa concepção não é diferente.
A criança de 2 anos em diante mostrou-se capaz de se adaptar à nova situação, mediada por professores que ressignificaram ambientes de aprendizagem, adequaram ferramentas e propiciaram condições diferenciadas para o desenvolvimento de várias habilidades, entre elas as socioemocionais.
A grande conquista foi a aprendizagem baseada em projetos em que as crianças demonstraram interesse por situações de cuidado consigo mesmo, com os amigos, com animais de estimação, com a natureza e propostas, de acordo com as faixas etárias.”

Imagem ilustrativa, de antes da pandemia

Quais os principais aspectos da educação antes dos 4 anos de idade?
“O primeiro é a convivência, um convívio diferente de um grupo primário que é a família. A criança formará vínculos com outras crianças e conseguirá trabalhar seus sentimentos. Algo que apareceu muito durante a pandemia foi o trabalho com as emoções: as crianças falaram de suas alegrias, tristezas e usaram diferentes representações para conversar sobre esses temas, às vezes sobre os pais estarem muito cansados em casa, questões econômicas ou mesmo falecimentos na família. A criança teve no professor esse espaço de escuta e acolhimento onde são desenvolvidos o autocuidado e o cuidado com o outro.”

Letramento
“Outro aspecto importante é o letramento: as crianças entram em contato com vários gêneros textuais que darão suporte a uma alfabetização futura; conhecer textos científicos, curiosidades, entrar em sites com as professoras – sempre mediadas por um adulto.
Os letramentos são fundamentais para as crianças se conectarem com esse mundo e aprender a brincar com recursos diferenciados, tanto no ambiente remoto quanto no presencial, além de lidar com outros contextos, que não só o de casa. Assim, ao irem para o Infantil 4 e 5, elas levarão as experiências desses trabalhos em grupos, desses pequenos projetos que fizeram e de conversas com adultos.
No Colégio Rio Branco, por exemplo, durante os ciclos letivos 1, 2 e 3, as crianças desenvolveram uma série de conhecimentos que resultaram em um projeto maior no ciclo 4, então, eu diria que é extremamente importante manter as crianças na escola porque é o início da educação básica e de um trabalho forte com valores, com cidadania, com a valorização da vida e também das outras aprendizagens que fazem parte do campo das experiências.
É comum as pessoas entenderem a importância da Educação Infantil a partir dos 4 anos por conta da obrigatoriedade, porém a criança aprende muito antes e é capaz de mostrar suas aprendizagens e potencialidades independente do ambiente (presencial ou remoto) em que se encontra.
A pandemia deu oportunidade de enxergar como as crianças, nessa faixa de 2 e 3 anos, utilizaram diferentes linguagens para demonstrar a diversidade de aprendizagens.” 


Sueli Marciale
Diretora assistente do Colégio Rio Branco – Unidade Granja Vianna. Atua especialmente com educação infantil e ensino fundamental. Psicopedagoga, com formação em Letras pela Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP), com especializações em Linguística Aplicada ao Ensino de Letras e Relações Interpessoais na Escola. Conferencista, possui certificações internacionais e lecionou no Ensino Superior na PUC-SP, por 20 anos. Acumula experiência docente e de gestão como diretora, coordenadora e assessora pedagógica em renomadas instituições de ensino.