“Insisto nos Biodinâmicos”

"As pessoas céticas em relação à Biodinâmica costumam dizer que se trata de “religião”, mas não sabem explicar por que uma videira podada em lua minguante não cresce, enquanto que a que foi podada em lua cheia florece com vigor, mas isso é um fato. Ou por que um vinho engarrafado em lua cheia fica em suspensão… O que é absolutamente maravilhoso por parte dos produtores biodinâmicos é que eles produzem vinhos simplesmente extraordinários em total equilíbrio com a natureza. Ou seja, se dependesse de pessoas como Nicolas Joly, o planeta continuaria intacto", escreve Didú Russo na sua coluna deste mês.

A biodinâmica surgiu no início do século vinte com os estudos do austríaco Rudolph Steiner. Esses estudos resgataram conhecimentos ancestrais e foram além, estudando o conceito de que a o Planeta Terra está em relação com os outros planetas, recebe suas influências e que o ciclo de equinócio e solstício é um respirar energético da Terra. Eles afirmam que com equilíbrio de qualquer sistema não existe a doença que seria fruto de desequilíbrio.

A Biodinâmica age no momento em que a fotossíntese está transformando a energia solar em matéria, a matéria da uva por exemplo é 94% fotossíntese! Depois que nasceu a uva, pouco se pode fazer no vinhedo. Eles também não mecanizam o campo para evitar compactar a camada superior do solo, que precisa respirar, trabalham com cavalos e arados e os animais convivem com o ambiente. É fundamental que esse ecossistema seja protegido de culturas que utilizem produtos químicos, o que é feito com plantação de um cinturão de árvores.

Rudolf Steiner

Os adeptos do biodinamismo também observam inúmeras informações desprezadas pela ciência como ciclos lunares, posições astronômicas dos astros e compostos animais para cada tipo de necessidade. Fazem também a dinamização de produtos para serem aplicados no vinhedo, como chás, sílica, etc.  O cultivo biodinâmico exige vasto conhecimento e é muito trabalhoso.

Para quem quer se aprofundar no clique aqui.

Para se ter uma ideia da distância de nosso conhecimento para o que eles fazem, imagine que um composto de fertilizante animal é enterrado no vinhedo dentro de um chifre de vaca, no período entre um equinócio a outro, pois quando desenterrado o preparado tem 80 vezes mais potência que o mesmo composto que não passou por esse processo.

A ciência não sabe explicar a razão e tenta ridicularizar essas coisas, mas não dá para ignorar seus efeitos. Aliás a ciência sabe explicar a paixão? Um cientista pesquisa cientificamente sua paixão?…

É importante saber que os vinhos se fazem a partir da ação das leveduras da própria uva. Elas transformam o açúcar em álcool e deixam no vinho todo o registro do local. Essas leveduras são o seu DNA.

Há inúmeros tipos de leveduras, algumas não muito desejadas e bactérias também que fazem parte do todo. Os vinhos puros da verdade usam apenas as suas próprias leveduras. Isso é fundamental para se garantir a autenticidade do vinho, que deve transmitir o seu local e ter seu próprio sotaque, mostrando autenticidade. Só com um vinhedo limpo e livre de produtos químicos é que se pode obter vinhos bons com as próprias leveduras.

Nos vinhos convencionais essas leveduras e bactérias são mortas por adição de SO2 (anidrido sulfuroso) e depois são adicionadas outras leveduras, muitas vezes de outros lugares. Existe nada menos que 350 tipos diferentes de leveduras que podem ser adicionadas no vinho para transformá-lo no que não ele não é.

Um vinhedo em equilíbrio não produz doença. Mas isso dá um trabalho danado e requer conhecimentos que a maioria dos enólogos não tem nas escolas. Se você se interessa por esse tema, sugiro que leia o artigo deste link: onde um texto de Nicolas Joly explica a importância de se saber da energia que garante a vida na Terra.

Mas o fato é que o interesse por esses vinhos vem crescendo, e como é a demanda que faz a oferta, já se pode encontrar biodinâmicos nas cartas das importadoras, e até importadoras dedicadas apenas a estes tipos de vinho como De La Croix, Gavino, Vin d’Ame, Weinkeller, Piovino, Metamorfose, Garrafalivre, Dominio Cassis, Enoteca Saint Vin Saint, além dos brasileiros: Atelier Tormentas, Era dos Ventos, Carrau, De Lucca Vinhos Finos, Dominio Vicari, Vinha Unna, Vinhedo Serena, Entre Vilas e inclusive conhecidas importadoras que têm preciosidades biodinâmicas em seu portfólio como: Mistral, Vinci, WorldWine, Decanter, Zahil, Premium, Casa Flora, etc.

No Brasil, vale ressaltar que o primeiro produtor a lançar vinhos orgânicos e com leveduras indígenas foi Juan Carrau, em 1977, com seu Cabernet Sauvignon, que abriu caminho para a “linha verde” que conta também com um Gewürztraminer maravilhoso e que abriu caminho para tantos outros que vieram a seguir.

Alguns vinhos biodinâmicos famosos: Le Roy, Domaine de La Romanée Conti, Château Le Puy, Clos de La Coulée de Serrant, Egly-Ouriet, J.C.Rateau, Pierre Frick, Marcel Deiss, Zind Humbrecht, Ostertag, Josmeyer, Michel Lafarge, Leflaive, Comte Armand, Catherine et Dominique Derain, La Grave, Rousset Peyraguey, Fleury, André et Mireille Tissot, Léon Barral, Rimbert, Alice et Olivier de Moor, Domaine de Trevallon, Chapoutier, Nikolaihof Wachau, Rainer EYMANN, Günther SCHÖNBERGER, Ricardo Pérez PALACIOS, Domino de Pingus, Alvaro ESPINOZA, Seña. São vinhos famosos e reconhecidos.

Nicolás Joly

Um dos mais ardentes defensores da biodinâmica é Nicolas Joly, um gênio produzindo vinhos no Loire. Ele produz o extraordinário Clos de La Coulée de Serrant, um chenin blanc que é tão importante que tem uma Appellation d’Origine Controlée só dele, a AOC Coulée de Serrant, em Savennières no Vale do Loire.

Os vinhos de Joly são uma preciosidade, frescos, amplos, untuosos, com toques tostados, floral, maracujá, amêndoas, marzipan, e não contam com adição de conservantes! Inacreditável. Nicolas Joly é um dos ícones da biodinâmica e principal responsável pelo movimento “Renaissence des Appellations”, que defende que apenas os vinhos biodinâmicos podem realmente refletir as particularidades de um lugar. Joly defende que cada vinho é único quando respeita seu “terroir”, pois será íntegro.

Para cuidar das vinhas, Joly se utiliza do que há na natureza. Na seca, por exemplo, ele aplica algas marinhas e nas floradas usa arnica que, segundo ele, resulta em melhores brotos. Joly é uma espécie de Galileu do vinho: ele afirma que uma vinha plantada na época certa – o que implica fase de lua em quadraturas astronômicas e direção dos ventos – nunca fica doente. Ou seja, ele está vendo coisas que os comuns não enxergam.

Ele não utiliza tratores em seus domínios, pois o peso é excessivo e comprimem em excesso a primeira camada de terra que, segundo ele, é fundamental na respiração e absorção de todos os elementos do ambiente. Em seus vinhedos, vacas e cachorros de sua propriedade circulam livremente. Joly explica, por exemplo, que as forças de equilíbrio são as forças da Terra (Dionísio) e do Sol (Apolo), e que deve se respeitar esse movimento, como os antigos faziam.

É um equívoco humano achar que a força da produção vem da terra apenas e precisa ser reposta em forma de adubos. “O sol é quem alimenta a vinha: 92% do que é produzido em matéria sólida vem da fotossíntese, da sua capacidade de captar algo intangível, como a luz do sol e seu calor e transformá-los em açúcares, hidrocarbonos e outras matérias”, nos ensina Joly apaixonadamente.

Essa convicção de que se deve respeitar os elementos do universo faz Joly proibir a presença de qualquer fator que venha a interferir nesse equilíbrio. Coisas como ondas de rádio, de celulares, computadores, satélites podem ter efeito devastador em seu mundo. “O homem não vê que está destruindo a sintonia entre as coisas da terra e fica se perguntando por que o clima está tão louco”, explica Joly.

“Meu vinho é trabalhado no vinhedo. Quando as uvas chegam na adega, não tenho que fazer nada. Elas estão tão saudáveis que o vinho se faz sozinho. Faço a prensa lentamente, durante 3 a 4 horas, coloco o vinho em barricas de 600 litros, que já têm uns 20 anos de idade, onde fermentam durante uns 3 meses”, diz ele, que se considera um “assistente da natureza” e abomina ser tratado como um “winemaker”. “Um homem não pode fazer vinho. Quem faz o vinho é a uva. Devemos ajudar a natureza para que ela trabalhe sozinha. Temos que buscar um retorno ao sabor da terra. A vinha deve carregar em sua fruta a imagem mais fiel do lugar onde mora. Esta é a origem das Appellations d’Origine Controlées”.

As pessoas céticas em relação à Biodinâmica costumam dizer que se trata de “religião”, mas não sabem explicar por que uma videira podada em lua minguante não cresce, enquanto que a que foi podada em lua cheia florece com vigor, mas isso é um fato. Ou por que um vinho engarrafado em lua cheia fica em suspensão…

O que é absolutamente maravilhoso por parte dos produtores biodinâmicos é que eles produzem vinhos simplesmente extraordinários em total equilíbrio com a natureza. Ou seja, se dependesse de pessoas como Nicolas Joly, o planeta continuaria intacto.

 


Didú Russo é editor do site www.didu.com.br, está no facebook (www.facebook.com/didu.russo/) e no Instagram (www.instagram.com/didu_russo/)