“Nós podemos prometer que os seus vizinhos estarão no mesmo nível que você. Na Granja Viana, que nós ajudamos a fazer, moram hoje pessoas discretas, mas extraordinariamente sabidas, que nos compraram grandes áreas, quando nós ainda éramos principiantes […] tem médicos, empresários, homens que jogaram na bolsa, quando isso ainda trazia fortuna, e outros que são ricos desde que nasceram. Tem até publicitários. Mas esses não incomodam, a não ser pelo eterno prazer de andarem em carros esporte, vestirem blue jeans e curtirem barbas, bigodes, cavanhaques, como se fossem uns pobres hippies libertários.”

Este texto é de um folder publicitário da imobiliária que a família Alcantara utilizava para vender os primeiros lotes na região onde é hoje a Fazendinha. Ao estilo ‘New Jersey’, a propaganda se baseava no estado americano onde os mais ricos escolhiam morar, pois era um lugar calmo, arborizado e longe de qualquer “inferno” da cidade de Nova York.

Desde aquela época – estamos falando do final da década de 1960 –, a Granja Viana já era procurada pela qualidade de vida que oferecia às pessoas. O que chamava a atenção era a baixa densidade demográfica, que propiciava ar puro e um contato saudável com a natureza.

“A Fazendinha se desenvolveu de maneira heterogênea. Chegou a ter lotes de 300 metros, porém lá no fundo eram todos lotes grandes”, relembra André Alcantara, filho de Paulo e Eugênia, casal que foi o precursor a lotear a Fazendinha.

Os lotes, segundo André, chegavam a ter 5 mil metros, mas por enfrentarem problemas jurídicos, tiveram de ser ‘fatiados’, ou seja, reduzidos. Para dona Eugênia, hoje com 80 anos, a Fazendinha sempre foi um sonho. “Loteamos a Fazendinha. Não foi fácil. Você pegar uma área crua, que não tem nada, e começar a fazer foi desafiador. Queria valorizar mais a região. Uma missão que não era financeira, mas sim de ver a área progredir”, conta.

Os primeiros lotes, segundo ela, foram feitos na Chácara dos Lagos. “Era tudo morro, mais pasto. Depois que ficou arborizado”, disse.

2019: a matriarca Dona Eugênia com os filhos.

Um estado de espírito

A Granja Viana, para o empreendedor Paulo Alcantara, era mais do que um bairro, e sim um ‘estado de espírito’. André recorda que o pai, que morreu há 20 anos, se preocupava com o meio ambiente. A região, que antes dos lotes era formada por vegetações rasteiras, começou a ganhar um tom mais verde após as vendas dos terrenos. “Antigamente, as pessoas compravam o lote com pouca vegetação e plantavam, algo que é completamente o oposto do que é hoje. Era uma filosofia do meu pai para manter a região com a menor densidade demográfica possível”, esclareceu.

André explica que houve na Fazendinha uma intervenção positiva do ser humano, ao contrário que do ocorre hoje quando qualquer área começa a ser loteada pelo mercado imobiliário. “Toda vez que abria um loteamento, a gente plantava muito. Meu pai falava que daqui a 30 anos ‘isso aqui vai estar lindo’”, declarou.

Dona Eugênia hoje vive em um condomínio no Jardim Colibri, limite de Cotia com Embu das Artes. Por mais que não seja tão próximo a Fazendinha, o local, repleto de área verde e sons de pássaros, remete ao passado, quando ela e seu falecido marido sonhavam em ver uma região crescer sem devastar o meio ambiente.

Por conta do progresso em toda a cidade, talvez hoje os moradores não consigam mais respirar com tanta tranquilidade como era outrora. Mas ficou ainda um resquício, uma boa parte do verde, graças ao pensamento não ganancioso de duas pessoas que se importaram com um crescimento sustentável, mesmo antes desse termo existir.

 

Por José Rossi Neto