Patricia Marx

Comemorando 30 anos de sucesso, a cantora granjeira engata uma fase bem-sucedida de sua carreira e de felicidade plena na vida pessoal

A Granja Viana é uma caixinha de surpresas. E descobrimos nela uma personagem cheia de bossa que fez parte da vida de grande parte dos nossos leitores. Com o mesmo jeito meigo da infância, mas com uma bagagem musical dotada de experiência, liberdade e independência, Patricia Marx, 37, mostra que cresceu, amadureceu e conquistou uma importante fatia no mercado artístico, no Brasil e no exterior.

Enquanto nossa equipe escutava atentamente sua trajetória, que começou na década de 1980 com o grupo Trem da Alegria, e foi muito bem construída nos âmbitos da música e da arte, passeávamos com a cantora por aconchegantes locais da região.

A primeira parada foi no Jacques Janine, no The Square, onde Patricia aceitou a proposta de passar por uma produção exclusiva para a nossa reportagem. Depois, seguimos para o Cemucam, espaço que ela ainda não conhecia, onde clicamos nossa entrevistada em uma sintonia perfeita com o verde da região. Patricia amou.

Além de defensora do meio ambiente, orgulha-se de ser vegetariana e adora estar em contato com a natureza.

Saiba, a partir de agora, como anda a vida profissional e como ela lida com assuntos como maternidade, casamento e religião.

Entre na intimidade de Patricia

RC: Patricia, conte-nos sobre seu ingresso no meio artístico.
PM:
Antes de ingressar no Trem da Alegria, eu já mostrava o meu lado artista. Minha mãe era professora de balé clássico, portanto, aos 5 anos eu criava coreografias, cantava e participava dos programas de calouros do Chacrinha e do Silvio Santos. Eu concorria com adultos, tinha a maior paciência de esperar horas para entrar no palco. O Chacrinha gostava muito de mim e sempre me convidava para participar. Na década de 1980, aos 9 anos, participei do Festival Internacional da Criança do SBT, e o vencedor gravaria uma faixa no disco do festival. A gravadora SA me ouviu, gostou e escolheu a mim e ao Luciano Nassyn para gravar um disco chamado Clube da Criança, com a participação da Xuxa, do Palhaço Carequinha, Sérgio Mallandro, Roupa Nova, entre outros. Estouramos com a música É de Chocolate. No ano seguinte, a gravadora convidou o Juninho Bill para integrar o grupo, e deu o nome de Trem da Alegria. Gravamos o primeiro LP com sucessos como Uni, Duni, Tê e Piuí Abacaxi, com a participação de Gal Costa, Pelé e Menudo. Foi um estouro.

RC: Cite pessoas que foram essenciais nesse período.
PM:
Meu pai e minha mãe foram fundamentais na construção da minha vida artística. Eles poderiam ter falado “Não. Você vai estudar, brincar e fazer coisas para a sua idade”. Eu digo isso hoje para o meu filho de 12 anos. Mas não. Eles foram visionários e sempre me apoiaram. Sabiam que eu tinha um dom. Eles me ensinaram a ser muito simples, ter os pés no chão e educação
suficiente para nunca pisar em ninguém.

RC: Você tinha noção do que o Trem da Alegria representava para o público infanto-juvenil naquela época?
PM:
A minha vida enquanto criança era uma loucura. Foram quatro anos de ensaios, shows, estudos no avião durante as viagens. Eu fui ter noção desse sucesso muito tempo depois. Na minha infância tive muitos privilégios, mas eu não dormia na casa de amigas, não ia a acampamentos e pouco brincava com outras crianças.

“Estava longe dos palcos, mas fiz um laboratório interno.
Estive em busca de novas experiências e estilos, ouvindo soul,
jazz, cantores antigos. Busquei enriquecer o meu repertório.”

RC: O que o Trem da Alegria representou para o seu crescimento profissional?
PM:
Fui refletir sobre isso quando fiquei mais velha. Eu não tive uma infância comum; tive um emprego desde cedo. Mas, sem dúvida, contribuiu muito para a minha construção artística. Tive intimidade com o palco, câmeras, estúdios e gravações desde muito nova. Em vez de ter estudado para ser uma artista, eu vivi intensamente isso.

RC: Aos 13 anos, você partiu para uma carreira-solo. Conte sua trajetória.
PM:
Minha saída do grupo foi doída, mas eu queria ter uma carreira-solo. Fui apoiada pela gravadora, pela Xuxa e pelos compositores que faziam música para o Trem da Alegria e que também compuseram para mim. Isso foi em 1987 e, seguindo um estilo pop, vendi bastante. Foi uma boa fase da minha carreira e fui muito bem recebida pelo público.

RC: Você faz muito sucesso em outros países. Quando viu que estava na hora de o mundo conhecer seu talento?
PM:
Em 1992, lancei o disco Neoclássico no Japão, produzido por um japonês musicólogo só com clássicos do MPB e bossa nova, como Pixinguinha e Tom Jobim. Ele veio para o Brasil atrás de uma cantora e gostou da minha voz e interpretação. Esta obra é vendida até hoje pela internet. Em 1998, já com o Marx agregado ao meu nome, voltei ao Japão com um novo trabalho, produzido por Nelson Motta, e agreguei os dois trabalhos. Eu chegava para cantar Nelson Motta e os japoneses pediam músicas do Neoclássico. Fui muito bem recebida. Em 2001, fui convidada a ir à Europa para participar do disco de um grupo de música eletrônica chamado 4Hero. Fiquei encantada e trouxe um pouco disso para o Brasil. Na época, a Trama lançou a obra Respirar, e das 12 faixas, apenas uma não era de minha autoria. O álbum tinha toda a influência de Londres, onde morei por um ano. Fiz turnês por toda a Europa, conheci outros conceitos musicais e lancei um álbum lá.

RC: Você, como artista, acha que o músico brasileiro é mais reconhecido no Brasil ou no exterior?
PM:
Eu gosto de ousar, e minhas loucuras musicais são mais bem-aceitas fora do Brasil. Aqui não dá para colocar um acorde mais sofisticado. Está tudo muito comercial. Então, fiz um trabalho para os europeus com influências londrinas voltado para soul e a black music, e estou preparando um para os brasileiros, que é um DVD acústico de 30 anos de carreira com os maiores sucessos de Patricia Marx.

RC: Você ficou alguns anos longe dos holofotes. Como foi esse período e o que ele significou?
PM:
Eu nunca parei. Eu não estava nos palcos, mas estava pesquisando muito, até para saber que tipo de música eu ia apresentar para as pessoas. Desde muito cedo, tive várias fases musicais, uma difere
nte da outra. E isso foi intencional. Sou inquieta. Não consigo car cantando a mesma música por muito tempo. Gosto de mudar o tempo todo, e nunca gostei de cair no que é comum. Estava longe dos palcos, mas fiz um laboratório interno. Estive em busca de novas experiências e estilos, ouvindo soul, jazz, cantores antigos. Busquei enriquecer o meu repertório.

RC: Fale um pouco de sua vida pessoal: casamento e maternidade.
PM:
Meu filho me colocou no trilho e me deu muita responsabilidade. Larguei a vida louca e sem horário de artista para ser mãe, com horários e rotina. Mudei diversos hábitos com a maternidade, virei vegetariana e me descobri compositora. O Arthur, hoje com 12 anos, me trouxe muita inspiração. Quanto ao casamento, fui fazer um show no Rio de Janeiro, em 1998, e o Bruno foi assistir. Quando voltei para São Paulo, nos encontramos e estamos juntos até hoje. Estou casada há 13 anos. O Bruno é meu companheiro na música, no casamento e na vida pessoal. Temos muito em comum. Ele produziu os álbuns Respirar e Patrícia Marx, título homônimo que marcou uma nova era na minha vida.

RC: Você tem um gênero musical bem diferente do pop do início da carreira-solo. Este é um gênero que combina mais com a Patricia de hoje?
PM:
O gênero soul é a minha cara, e eu o desenvolvo para o mercado lá fora. Eu acho que consegui desenvolver esse estilo ao longo do tempo, por meio de pesquisas e cantando bastante. A coisa mais comum, atualmente, é alguém imitar alguém, e eu nunca gostei disso. Sigo meu estilo, gosto de várias coisas e tenho minhas referências. Adoro mergulhar de cabeça em diferentes projetos e estilos. Em 2007, fiz um show tributo a Billie Holiday, ícone do jazz, e Elizeth Cardoso, uma das maiores intérpretes do choro e do samba-canção (estilo que surgiu na década de 1930).

RC: E onde fica a música eletrônica no meio disso?
PM:
A música eletrônica é muito abrangente. Eu não posso dizer que faço música eletrônica hoje, mas uso instrumentos eletrônicos em minhas criações.

RC: Você compara sua carreira de antes com a de hoje?
PM:
Não. Eu acho que tudo foi válido, e foi um caminho que teve começo, meio e ainda não teve fim. Mas um dia terá. Não adianta comparar. Eu sou outra pessoa hoje.

RC: Se você não fosse uma artista, o que seria?
PM:
Nunca me vi fazendo outra coisa a não ser música. Gosto de muitas coisas, mas a música é minha grande paixão. Adoro a área de gastronomia.

RC: Como você encara o mercado musical do Brasil na atualidade?
PM:
De modo geral, o mercado musical está ruim. É um mercado imediatista e ficou superficial. Tem profissional bom e música de qualidade, mas dá para contar nos dedos quem faz música séria. Fico surpresa quando entro no YouTube e vejo que os vídeos musicais que têm mais visualizações são os mais toscos. Esse é um problema cultural, e a cultura vem decaindo cada vez mais. A internet ajuda bastante a divulgar nosso trabalho, mas,
por outro lado, banalizou a comunicação. As pessoas não se questionam
mais. Cantam e comentam qualquer coisa. Se não tiver cuidado, a internet
emburrece em vez de agregar.

RC: Falando de internet, quem são as pessoas que estão no seu Facebook?
PM:
Fãs e curiosos. Posso dizer que 80% delas eu não conheço. São pessoas interessadas em saber o que ando fazendo, como shows, lançamentos e músicas. Muitos fãs eu conheço, pois me acompanham há bastante tempo. Cerca de 1% são meus amigos e familiares. Mas sou internauta, sim. Curto estar online. Sei usar a ferramenta.

RC: Como é sua rotina? Quais atividades gosta de fazer?
PM:
Eu detesto rotina. Meu filho cresceu, então hoje não preciso ter uma vida tão regrada. Não tenho horário para dormir nem para acordar. Dependendo da minha agenda, vou à academia, faço Pilates, vou meditar no Templo Zu Lai, vou ao cinema, encontro com os amigos, fico no estúdio compondo. Tudo isso sem horário determinado. Cada dia é um dia diferente.

RC: A família toda é vegetariana. Você impôs isso ao seu filho?
PM:
Não. Há uns dois anos, ele assistiu a um vídeo sobre rodeio e decidiu virar vegetariano.

RC: Você já conhecia a região? Por que resolveu vir morar aqui?
PM:
Alguns parentes moram em Embu das Artes, então eu já conhecia a região. Morava no bairro de Perdizes e vim para cá em maio. Descobri que não há nada melhor que estar em meio à natureza, e não troco este lugar nem por um apartamento superluxuoso em São Paulo. Moro em casa, tenho jardim, acordo com o pé no chão, ao som de passarinhos. Isso era um sonho meu. Não tenho muita paciência com a loucura da cidade grande.

RC: O que você mais gosta e o que menos gosta aqui.
PM:
Gosto muito da qualidade de vida que Cotia me proporciona; moro rodeada de um mato maravilhoso. Adoro ir ao cinema e vou sempre. O trânsito da Raposo Tavares é algo que me incomoda bastante. Outra coisa que vejo muito são cachorros abandonados pelas ruas. É muito triste isso, além de ser um grande problema. Estou com quatro resgatados na minha casa. Sou uma “mãezona”, abraço a causa dos animais e vejo que isso está muito ligado ao vegetarianismo.

“Descobri que não há nada melhor que estar em meio
à natureza, e não troco este lugar nem por um
apartamento superluxuoso em São Paulo.”

RC: Você disse que adora ir ao cinema. Qual o último filme que viu e marcou?
PM:
A Pele que Habito, do cineasta espanhol Pedro Almodóvar. Gostei bastante também de Melancolia, do cineasta dinamarquês Lars von Trier.

RC: Gostaria que você definisse a palavra “sucesso”.
PM:
O sucesso é a realização dos objetivos. E mais importante que isso é aprender no caminho. A vida proporciona milhares de
situações, e podemos buscar crescimento em todas elas.

RC: Quem ou o que te inspira hoje?
PM:
Quem me inspira é o meu guia espiritual da tradição budista. Ele trouxe os ensinamentos de Buda para o Ocidente e teve a bondade de traduzir toda essa sabedoria para a nossa língua. Para nós, budistas, ele é um Buda vivo.

RC: Como você começou 2012 e o que vem pela frente?
PM:
Comecei 2012 trabalhando muito e concentrando todas as forças no DVD que vou lançar este ano, dos meus 30 anos de carreira. A minha intenção maior é dar um grande presente aos meus fãs, pessoas que reconhecem o meu trabalho e sabem o que representei na vida deles. Nada melhor para mim que retribuir com o meu trabalho. Tenho desenvolvido esta obra com a maior bondade, carinho e gratidão do mundo. Será um
disco muito mais próximo, afetuoso e carinhoso.

Discografia
(1987) – Paty
(1988) – Patricia
(1991) – Incertezas
(1992) – Neoclássicos (Japão)
(1994) – Ficar com Você
(1995) – Quero Mais
(1997) – Charme do Mundo
(1999) – Millenium
(2002) – Respirar
(2004) – Nu Soul (Europa)
(2005) – Patricia Marx
(2010) – Patricia Marx e Bruno E

 

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