Retratos de Obama

Primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos, ao lado de todos os outros 43 presidentes brancos, pintados por artistas também brancos, faz um marco na história do país, quebrando paradigmas e mudando regras e tradições.

No dia 11 de fevereiro de 2018 foram revelados os retratos dos Obamas, talvez os mais esperados retratos presidenciais da história. Antes de virar notícia no mundo, o artista responsável pelo retrato de Barack Obama, Kehinde Wiley, já era muito conhecido no universo artístico. Em alguns círculos é conhecido como o “Leonardo da Vinci do hip-hop”.
Nos últimos 20 anos, o artista americano, nascido em 1977 em Los Angeles, que vive em Nova York, no Brooklin, ficou conhecido por suas obras em grandes formatos, que retratam afro-americanos contemporâneos em contextos seculares e em situações que simbolizam poder e status. Sua obra faz alusões a quadros históricos, retratando personalidades afro-americanas em poses clássicas, muitas vezes com adereços do presente, em fundos de cores vibrantes.

Tanto o retrato de Barack Obama como o de Michelle Obama, da autoria da menos conhecida artista Amy Sherald, serão exibidos na Galeria Nacional de Retratos do Museu Smithsonian permanentemente, junto aos retratos de todos os outros presidentes que os Estados Unidos já tiveram e suas respectivas primeiras-damas. Obama, o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos, ao lado de todos os outros 43 presidentes brancos, pintados por artistas também brancos, novamente faz um marco na história do país, quebrando paradigmas e mudando regras e tradições.

Wiley e o ex-presidente têm muito em comum. Ambos têm mães americanas, que os criaram com muito amor e apoio. Ambos têm pais africanos e ausentes de suas vidas. Ambos, de uma forma ou de outra, têm como parte de suas jornadas de vida a busca por estes pais ausentes e o significado que isso tem. Barack escreveu sobre o assunto em um livro, enquanto o artista sublimou isso por meio de suas pinturas.

Antes de Obama, Wiley já tinha pintado muitos famosos. Fez o retrato de Michael Jackson, LL Cool Jay, Ice-T, entre outros. O trabalho do artista pode ser visto em vários museus americanos e africanos.

VAMOS OBSERVAR

Barack Obama por Kehinde Wiley, 2018 

Óleo sobre tela

National Portrait Gallery, Smithsonian Institution


O retrato de Obama tem todas as características marcantes de sua obra. A encenação e a pose de Obama são menos impositivas do que costumam ser nos quadros do artista, mas o fundo, uma parede de vegetação e flores, numa lógica de papel de parede repetitivo, ornamentado e luxuriante, é semelhante a outras obras do artista. Esta escolha de fundo também fala sobre as origens étnicas de Obama. Os diferentes tipos de flor que se destacam do verde das folhas foram cuidadosamente escolhidos. O Crisântemo é a flor oficial de Chicago, cidade onde Barack cresceu e começou sua vida política; o Jasmin é a flor oficial do Havaí, país onde ele nasceu; já os Lírios azuis representam a África.

O estilo hiper-realista de pintar seus personagens não deixa nada passar despercebido. Durante a apresentação da obra, o ex-presidente até brincou, dizendo que tentou negociar com o artista o tamanho de suas orelhas e seus cabelos brancos. O artista respondeu que isso “comprometeria sua integridade artística”. Wiley disse ao jornal The Guardian que “pintar o presidente é uma imensa responsabilidade” e que deveria ser levado a sério. O artista tirou milhares de fotografias para compor a imagem de Obama, um processo diferente do seu processo comum, onde as pessoas posam ao vivo para ele. Sua arte tem, claramente, um fundo político. Começou a pintar suas séries de retratos de afro-americanos quando se deu conta da quase ausência de imagens de negros nos museus. Na sua visão, o cânone da arte está direcionado para representar quem detém o poder, e os afrodescendentes estiveram sempre ao lado dos excluídos.

Como todos os artistas de sucesso, críticas negativas também não lhe faltam. Existem aqueles que consideram a sua arte previsível e que segue uma fórmula esvaziada de conteúdo. Ele se defende argumentando que tem uma linguagem própria e que preenche uma lacuna criada na história da arte. Um posicionamento que incomoda, porque no decorrer dos anos foi reinventando a tradição e retratando quem está à margem das estruturas do poder com padrões estridentes, forçando quem vê suas obras a se interrogar sobre as fronteiras entre verdade e ficção.

O trabalho de Wiley tem uma enorme relevância, nos dias atuais, em um país onde Donald Trump, com seu discurso de ódio contra todas as minorias, abriu uma Caixa de Pandora para todos os tipos de preconceitos por um certo tempo enterrados no coração dos americanos. Tem uma relevância maior ainda no âmbito mundial e abre diálogos necessários sobre o racismo, ainda muito presente e enraizado em nações que têm a escravidão como herança histórica.

 

Por Milenna Saraiva, artista plástica e galerista, formada pelo Santa Monica College, em Los Angeles


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