BICHOS
Desde a época das cavernas, procuramos enxergar nos animais características nossas ou aspectos semelhantes entre as espécies. Por milênios, os escolhemos para, simbolicamente, representarem nações, devido ao seu perfil.
Vale lembrar alguns exemplos, como o galo gaulês, associado à França. Os celtas o consideravam um animal sagrado e o chamavam de “pássaro da manhã”, por anunciar a chegada do Sol. Seu símbolo foi muito usado durante a Revolução Francesa por transmitir a ideia de luz, coragem, vigilância e orgulho. Honrado pelo rei Luís Filipe, ao colocá-lo no lugar das águias nas hastes das bandeiras. Mas conta-se que o fundador da nação francesa, o rei Clóvis, teria adotado um sapo dourado como símbolo real no ano de 496. Por não transmitir exatamente a ideia de realeza, sua imagem foi modificada até chegar à sua forma atual, representada nas setas do Exército francês. Ou teriam virado príncipes?! Bem, atualmente existem mais cachorros que príncipes. É o que podemos notar com o alto número de poodles no país, reflexo da moda lançada por Luís XIV, que ocupou palácios com seus poodles “reais”.
No século XIX, a moda europeia elege outro animal. Para desespero dos castores canadenses, os chapéus da época passaram a ser confeccionados com sua pele. Viraram a principal atração mercantil do Canadá, que seduziu exploradores pelo continente inteiro atrás dos 6 milhões de espécimes que habitavam a região. Anualmente, eram enviadas ao continente europeu cerca de 100 mil peles desses roedores, onde passaram a valer 20 vezes mais que seu preço original. Assim, na metade daquele século, a espécie entrou em extinção. Por sorte, a moda passou a namorar chapéus de seda, e a população de castores canadenses voltou a crescer. Nada mais justo que esse animal seja o símbolo popular do Canadá!
“Minha terra tem palmeiras,
onde canta o sabiá; as aves
que aqui gorjeiam, não
gorjeiam como lá”.
(Gonçalves Dias)
Na Austrália, o canguru também sofreu com a exploração estrangeira. Esses animais, nativos do continente australiano e regiões da Papua Nova Guiné, chamaram a atenção dos colonizadores europeus, que os colocaram na lista de atrativos da Oceania. Hoje, uma rigorosa legislação protege os cangurus. No brasão do país, outro animal típico vai ao seu lado: a ema. Representa progresso, pois não se move para trás.
Próximo ao continente australiano está localizado o complexo de ilhas que forma a Nova Zelândia, simbolicamente representada pelo interessante quivi, ave pouco maior que a galinha, tem o corpo revestido por cerdas em tons de marrom. É a menor das aves que, assim como a ema e o avestruz, não consegue voar. Suas asas são tão pequenas que quase não se notam. Seu nome é onomatopaico, ou seja, provém do som característico que emite. Hoje são encontrados em liberdade em poucas florestas neozelandesas. Entraram em extinção com a destruição gradativa de seu habitat e a ameaça de predadores como cães, gatos e ratos, que surgiram com a colonização. Por ser um animal endêmico, representa a Nova Zelândia, assim como o panda-gigante representa a China.
Um dos animais mais queridos em todo o mundo, o panda-gigante é considerado tesouro nacional chinês. Já habitou o Vietnã e a Birmânia, mas hoje existem apenas 2 mil espécimes em liberdade, e somente nas montanhas do sudoeste da China. Com a caça e desastres naturais, como terremotos e a destruição de florestas de bambu pela civilização moderna, esses animais entraram em extinção. Assim, o governo chinês decidiu aplicar leis rígidas aos seus infratores e criar áreas de proteção aos pandas e um programa de apoio às crias recém-nascidas.
Outro país a defender seu animal-símbolo por lei é a Tanzânia, representada pela girafa. Seu longo pescoço simboliza a capacidade de observar a vida por todos os ângulos, além de transmitir paz e graciosidade. Como seu coração é um órgão grande, tradições africanas utilizam a imagem da girafa em reuniões para que os entendimentos do coração sejam tão significativos quanto os do pensamento. É um dos poucos países a adotarem um animal de temperamento pacífico como representante da nação. Há quem diga que o símbolo transmite a ideia de um governo passivo diante de possíveis ameaças.
No Brasil, o governo adotou o sabiá-laranjeira como representante nacional, pelo decreto de 3 de outubro de 2002. A escolha de uma ave de origem oriental, abundante em todo o território brasileiro e também em outros países, que se adapta a florestas, cerrados e centros urbanos, alimenta-se das fontes animal e vegetal, nos faz pensar que talvez este animal tenha sido eleito por ser um símbolo seguro para o governo, já que está longe do risco de extinção. Diferentemente das espécies renegadas de forte representatividade nacional, como a onça-pintada, a arara-azul, o mico-leão-dourado e o lobo-guará, por exemplo. Sem contar a ararajuba, que é endêmica e tem as cores nacionais, verde e amarela. Mudar o quadro de animais em extinção é uma tarefa que requer grandes esforços políticos, talvez, por isso, nossos legisladores tenham preferido a inspiração na Canção do Exílio, de Gonçalves Dias.

Países e seus animais símbolos:
Albânia: águia bicéfala
Argentina: puma/joão-de-barro
Bahamas: flamingo vermelho / marlim-azul
Bangladesh: tigre de bengala
Belize: anta/tucano-de-bico-verde
Brasil: sabiá-laranjeira
Bolívia: lhama
Botswana: zebra
Chile: condor andino
Índia: tigre de bengala/pavão
Japão: carpa/faisão
Nepal: vaca
Costa do Marfim, Tailândia: elefante
Dinamarca: cisne
Grécia: ovelha
Angola, Islândia, Paquistão: falcão
Noruega: alce
Romênia: lince
Turquia: lobo cinza
Bulgária, Etiópia, Jerusalém, Luxemburgo,
Suécia, Sri Lanka, Holanda: leão
Escócia, Egito, EUA, Alemanha, Áustria,
Armênia, Polônia, México: águia
Lituânia: cegonha-branca
Malta: melro-azul
Peru: vicunha/galo-da-serra
Coreia do Sul: tigre siberiano
Mongólia: cavalo/cisne
Tibete: leão branco da montanha
Vietnã: búfalo asiático
Papua Nova Guiné: ave do paraíso
Guatemala: quetzal
Finlândia e Rússia: urso
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Anita Falcão Arteiro é atriz e jornalista. Já atuou em programas como Sítio do Pica-Pau Amarelo, Malhação, Álbum de Casamento, Contando História, além de peças de teatro e campanhas publicitárias. Como jornalista, estão entre seus entrevistados: Fátima Bernardes, Vanessa Riche, Mylena Ciribelli, Monika Leitão e Leilane Neubarth. Apaixonada por animais, atualmente é responsável pelo conteúdo jornalístico do portal www.diskracao.com.br span>












