
Música acalma, estimula a memória, alivia as dores do corpo e ajuda no exercício físico. E isso é comprovado. Ela ativa o centro de prazer do cérebro, assim como o sexo e o chocolate, por exemplo. Faz liberar dopamina e causa uma sensação de bem-estar e, por isso, tem trazido ótimos resultados para a medicina.
Mas tem gente na região que não pensou duas vezes antes de mergulhar de cabeça nas notas musicais e encarar a música não só como entretenimento – ou forma de cura − mas, sim, como o “ganha-pão” e estilo de vida. “A relação entre música e ser humano é muito pessoal, sem receitas prontas”, explica a musicoterapeuta Roberta Nagai, que estudou a música e seus elementos em suas mais diferentes formas. Para ela, a sensibilidade e a percepção criam um caminho peculiar na história musical e pessoal de cada um.
Vitor da Trindade
Percussionista
Embu das Artes (SP)
Intérprete nato do suingue brasileiro, desde muito cedo a música fez parte da vida de Vitor da Trindade. Aos 2 anos de idade, já cantarolava pela casa músicas de Little Richard. Mais tarde, descobriu que jogar bola e brincar na rua não fazia parte de suas atividades. Ainda menino, já se dedicava a compor músicas, paródias e marchinhas. Aos 13 anos, tocava chorinho na porta de casa com os amigos e sente-se orgulhoso em afirmar que todos se tornaram músicos profissionais. Sendo membro de uma família de artistas – é filho de Raquel Trindade, considerada um griô (guardião do conhecimento), e neto do poeta Solano Trindade, logo, com total apoio para seguir este caminho, Vitor pensou em desistir em 1987, quando ficou deprimido com seu primeiro grande trabalho que não deu muito certo. “Passei cerca de três meses trabalhando com outras coisas e percebi que minha competência estava na música. Se eu não fosse músico, não seria nada”, conta ele. Aprendeu violão, canto popular, capoeira, maculelê, percussão e dança brasileira. Vitor, cujos filhos seguiram seus passos, tem se apresentado pelos quatro continentes e sente falta de tocar mais no Brasil. Atualmente, é professor de percussão, diretor musical, pesquisador de ritmos e instrumentos afro-brasileiros, coordena cursos para comunidades, é líder do trio Xaxim e acompanha, como percussionista, nomes importantes da música.
No som do carro, Vitor escuta sempre discos de trabalhos de alguém ou seu.
A dica do músico para quem quer seguir a carreira é: “Comece logo”.
Pedro Guida
Flautista e cantor
Granja Viana, Cotia (SP)
De família que sempre apreciou boa música – a mãe era fascinada por piano, o pai escreve letras de música e a irmã toca clarinete −, Pedro teve aulas de flauta doce e xilofone ainda pequeno, na escola, mas foi na adolescência, já em outro colégio, que a música passou a fazer parte do seu dia a dia de forma definitiva. Aprendeu a tocar flauta doce, transversal e teve suas primeiras aulas de canto. Fez parte do coral e tirou de letra, pois tinha certa familiaridade com as partituras. Mesmo estudando música e querendo saber sempre mais, nunca passou pela cabeça do rapaz ser músico profissional.
Por isso, resolveu prestar vestibular para Medicina. No entanto, dias antes da prova, a música falou mais alto, e decidiu que não queria mais ter a música com hobby, mas como objetivo central da vida. Para se aperfeiçoar, fez aulas particulares de flauta transversal com a professora Paula Pascheto, entrou para o coral da USP, onde está há quatro anos e meio participando dos ensaios e apresentações, e fez aulas particulares de canto lírico com a professora Christine Grote. À parte disso, dedicou-se às aulas de canto e piano na USP.
Tanto gás vem da crença de que ainda existem artistas bons e muitas obras brasileiras de qualidade. No entanto, tem plena consciência de que as coisas mudaram. “O que toca nas rádios, hoje, é um som bem diferente do que tocava na época da minha avó, por exemplo. Antes as pessoas ouviam Chico Buarque e viam, na TV, os festivais que contavam com Elis Regina e outros nomes que marcaram época; não se tem mais isso hoje”, lamenta. Por outro lado, Pedro comemora o sucesso das redes sociais para divulgar novos nomes da música popular brasileira.
Sobre a música, o flautista sabe exatamente o que ela pode significar. “A música tem a capacidade de potencializar e amenizar os sentimentos. Ela pode, muitas vezes, deixar a vida de uma pessoa mais leve ou mais intensa. É muito mais que uma expressão de arte, é também um estilo de vida. Não basta apenas entendê-la, é preciso senti-la”, afirma.
Para este ano, Pedro pretende passar em Música na USP e na Unesp, além de integrar o conservatório Emesp. Um sonho a ser realizado é cantar no musical Os Miseráveis. E já tem fãs torcendo por isso.
O que não pode faltar no som do seu carro? Beatles, Queen, Frank Sinatra, Of Monsters and Men e trilhas sonoras de musicais e filmes.
Krucis Khan
Citarista
Cotia (SP)
É discípulo de Ustad Aashish Khan, de Kolkata, Índia. Inspirado pela tradição sufi há 20 anos, desenvolveu seu trabalho com a cítara e o Canto dos Harmônicos na Turquia, na Índia e no Brasil. Entre tradição e inovação, ele oferece concertos de Música Clássica Indiana e dirige Kirtans e harmonizações sonoras em residências. Krucis faz fusões com outros gêneros musicais em parceria com músicos brasileiros e internacionais. Fez parte, tanto como músico quanto produtor musical e produtor artístico, dos álbuns de diferentes artistas, tais como Cesar Camargo Mariano, Toquinho, Renato Teixeira, Beth Carvalho, Zé Ramalho, Cláudio Cartier, Octavio Burnier e Marília Gabriela. Em 1992, fundou o grupo musical de música clássica e folclórica indiana chamado Sangeet. Com este grupo fez diversos concertos no Brasil, em centros culturais, teatros e fundações.
Um sonho realizado foi fazer o encerramento do evento pela paz mundial Teia da Paz, na cidade de Curitiba, durante a visita de S.S. Dalai Lama ao Brasil.
Quando o assunto é reconhecimento, o músico conta: “Nas festividades do aniversário de 50 anos da independência da Índia, fui condecorado pelo governo indiano por meu talento e trabalho na promoção da Música Clássica Indiana no Brasil”, conta.
Krucis participou das trilhas sonoras do filme Mar Vermelho, em campanhas publicitárias e espetáculos. Lançou quatro álbuns autorais. Em 2005, lançou três discos pela revista Medicina Ayurveda, publicada e distribuída por todo o Brasil, em países da América do Sul, nos EUA, Portugal, Itália e Espanha. O músico está entre os maiores citaristas do Brasil.
Ele acredita fortemente na música como meio para sair do estado de estresse. “As pessoas deixam o pensamento brotar demais, e a música traz a pessoa para o foco. Toda possibilidade de cura vem do esvaziamento, para que a pessoa consiga se ver, enxergar o mal que a atinge”, explica.
Nathalie Alvim
Cantora
Granja Viana, Cotia (SP)
Nathalie foi uma garotinha esperta e apaixonada pela música. Roubava os discos de sua mãe para escutá-los e, no seu aniversário de 8 anos, foi presenteada com um piano, o que despertou sua vontade de aprender a tocar um instrumento. Logo depois, começou a sentir necessidade de cantar enquanto tocava. E conseguiu.
Para quem não tinha pretensão alguma de seguir a carreira de cantora, Nathalie dedicava horas do seu dia à atividade. Com o tempo, percebeu que precisava se aprofundar e estudar e, entre as tarefas do colégio, reunia-se com amigos que gostavam de música para ensaiar.
Apesar de ninguém da família ser do meio musical, ela garante que recebeu todo o apoio e incentivo dos pais. “No máximo, um receio ou outro que acho totalmente normal e natural, ainda mais quando os familiares nunca trabalharam com isso e não conhecem a rotina, o mercado de trabalho e como as coisas funcionam nesse meio”, explicou.
Fã de músicas boas e músicas novas – adora ouvir sons desconhecidos –, acredita que a música é a linguagem mais profunda que existe para tocar as pessoas. E, talvez por isso, ela não se vê fazendo qualquer outra coisa que não seja relacionada a esse ramo, apesar de, em momentos difíceis, pensar em procurar coisas paralelas para fazer, porém, desistir jamais. “As dificuldades sempre existiram e acredito que não deixarão de existir. O que aprendi e continuo aprendendo na profissão que escolhi é que você tem de fazer acontecer. Planejar, criar, buscar contato, administrar etc. A música está dentro de mim muito mais do que qualquer outra coisa que já experimentei e conheço na vida.”
Além de cantora, Nathalie Alvim se dedica a dar aulas de canto e técnica vocal.
Como enxerga o cenário musical brasileiro? “Existem muitas bandas de conceito e qualidade aqui. O que me parece difícil é a mídia dar espaço para essas bandas. Nunca trabalhei fora do país. Mas, sim, acho que o brasileiro tem o hábito de valorizar mais o que é de fora, mesmo que a qualidade seja a mesma.”
Ney Souza Aguiar
Violinista
Caucaia do Alto, Cotia (SP)
“Eu acredito que a música tenha entrado na minha vida quando eu ainda estava na barriga da minha mãe”, afirma Ney Aguiar. Filho de músicos − a mãe fazia aulas de piano e órgão (hoje é professora) e o pai de violino, ambos no Conservatório Musical Villa-Lobos –, cresceu com esta influência. Sempre gostou de tocar, mas nunca pensou em ser músico profissional. Na verdade, isso despertou quando o pai viu um grande potencial no rapaz, começou a pagar o primeiro professor de violino e o indicou para tocar na Orquestra Filarmônica Infanto-Juvenil de São Paulo, onde, além de tocar, aprendeu muito sobre música. “Tive muitas oportunidades musicais, como tocar nas grandes salas de concertos de São Paulo, conhecer um extenso repertório e viajar pelo mundo”, conta o músico.
O fato ser músicos não tirou dos pais dele a insegurança em relação ao futuro do filho. “Eu sofria pressão para procurar uma profissão que me desse garantia de trabalho, mas, graças a minha mãe, segui firme com a música”, relembra.
Ele afirma que um músico demora muito tempo para começar, de fato, a ganhar dinheiro. “Fiz faculdade, estudei fora do país, e hoje mantenho minha casa. Músico bom sempre tem trabalho, mas tem de saber administrar bem seu dinheiro.”
Para ele, a música ajuda a ter disciplina, sensibilidade, responsabilidade, proporciona paz para a alma e, no caso dele, abriu muitas portas para conhecer outros mundos. Viajou para os Estados Unidos, Bélgica, Holanda, Alemanha, Áustria e Itália, sempre estudando e trabalhando muito.
Atualmente, Ney é violonista; diretor musical da empresa La Regina Quarteto de Cordas; integrante de um quarteto de cordas que se chama Yaporá, de música erudita; professor de alguns projetos sociais, como o Guri Santa Marcelina e Estaleiro musical, no Guarujá; ministra aulas particulares e sonha em ser maestro.
A carreira de músico: “Não é um caminho fácil, pois a recompensa demora! Demora, mas vem! O importante é estudar o máximo que puder e não desistir nunca. Quem é bom no que faz sempre ganhará dinheiro, sempre terá um futuro garantido”.
Marcelo Carvalhaes
Violonista, cantor e compositor
Tendo Tom Jobim como sua maior influência musical, Marcelo não tem uma história muito diferente da de tantos que vivem de música. Começou a estudar violão aos 12 anos de idade. O que era apenas um hobby foi ficando cada vez mais sério. Vieram as bandinhas com os amigos da escola. Lá pelos 17 anos, decidiu que queria ser músico profissional. Foi estudar violão com o grande mestre Paulinho Nogueira e não parou mais. Não foi fácil, para os pais de Marcelo, aceitar essa decisão. “Eles não gostaram muito da ideia. Tinham receio quanto à vida noturna, a boemia, a baixa remuneração, essas coisas. Mas, tão logo perceberam que era sério, passaram a apoiar e a incentivar.”
E deu certo. Marcelo se profissionalizou e, hoje, tem plena certeza de que seguiu o caminho certo, mas garante que seria um bom jornalista de arte, caso não fosse músico. Quanto às dificuldades, ele declara: “Dizer que a dificuldade não existe seria hipocrisia. Mas, por outro lado, não é só com os músicos. O Brasil trata mal seus médicos, professores e cidadãos em geral”. E o alerta que dá aos novatos é que a música não tem nada a ver com carrões e mulherada. Segundo ele, a tarefa é árdua. É preciso estudar muito e passar horas e horas debruçado sobre o instrumento em busca da perfeição. Além disso, o respeito pelo público é fundamental. “Valorize 100 mil pessoas num mega-show ou uma ou duas numa aula”, aconselha. Quanto ao cenário musical no Brasil, Marcelo acredita que outros valores estão sendo colocados como prioridade. “É muito conveniente dizer que o povão só gosta disso ou daquilo. O povão gosta do que é oferecido pela TV. Se a TV passar a oferecer Tom Jobim e Chico Buarque, o povão vai consumir isso. Já participei de palestras e workshops com músicos de outros países, e eles sempre me dizem que se eu vivesse no país deles seria rico.”
Com planos de tocar na Europa, Marcelo, hoje, dirige a Academia de Música Granja Viana e atua como músico no projeto musical Somos Mais Bossa.
O poder da música: “Às vezes, simplifico tanto uma decisão difícil depois de ter tocado uma ou duas horas!”.
Por Mariana Marçal












