Eu sempre comento que nasci alguns anos atrasada. Pelo menos com relação às aventuras nas quais me lanço. Roupas, materiais tecnológicos e comunicação fazem toda diferença numa empreitada mais aventureira.
Quando era mais jovem as mochilas a que tinha acesso eram de lona, pesadíssimas. O “sleeping bag” enorme. Não haviam botas de caminhada de boa qualidade como hoje. E o pior, o manejo da comunicação e dinheiro era bem complicado, sem cartão de crédito ou celular.
Então morro de inveja quando meu filho relata sua última aventura ao acampamento base do Everest. Gostaria muito de ter feito…
Mas então, o “trekking” mais radical que fiz foi a poucos anos atrás na Cordillera Blanca no Peru. Este é um trekking de intensidade moderada e na época estava numa muito boa condição física.
Viajamos de Lima à Huaraz num ônibus de linha e a viagem demorou ao redor de 8 horas para percorrer os 440 kms.
Huaraz é uma típica cidade andina encrustada entre a Cordillera Blanca e Negra. Fora o comercio local existe este outro nicho voltado ao turismo de aventura sendo considerada a capital da caminhada do Peru.
É nesta cordilheira que se encontra um dos picos mais altos do Peru, o Huascarán, a 6708 ms de altura.
A região é um parque nacional, então é necessário uma permissão de entrada.
Existem alguns percursos possíveis, e nós optamos por este de quatro dias e três noites, que era o que se encaixava na nossa programação.
Ficamos duas noites em Huaraz para uma aclimatação inicial da altitude, uma vez que a cidade já se encontra a 3052 ms de altitude.
A cidade é bem graciosa e passamos o dia visitando o mercado local e entornos.

No dia seguinte fomos levados de carro ao nosso ponto de partida da caminhada no vilarejo de Cachapampa.

Ao final de cada dia de caminhada, chegávamos a um acampamento, onde nossa barraca/cozinha já estava montada e ao lado uma outra pequena barraca onde dormíamos.
Banho, logicamente não existiu. No máximo um banho de gato nas aguas geladas dos córregos que desciam da cordilheira.
Com uma pá fazíamos pequenos buracos no chão, onde após nos aliviarmos cobríamos com terra.
Então era engraçado que determinadas áreas do acampamento era cheia de pequenos montinhos…
Era um alívio após o dia todo de caminhada descansar, beber um chá de coca e comer uma comidinha quentinha preparada pelo nosso carregador/cozinheiro ouvindo suas histórias.
Foram noite bastante frias e silenciosas. Dormíamos grudadinhos, sem se mexer, para não entrar nenhuma lufada de vento frio nas nossas peles.

A paisagem é deslumbrante, e acho que talvez estivéssemos fora de temporada, pois ao longo dos 4 dias cruzamos com somente três outros viajantes.
Uma sensação de pertencimento a este mundão, e ao mesmo tempo de abandono às intempéries, como nevascas e terremotos.
A maior parte do percurso é feita num vale, com alguns trechos de subida.
Dormimos a segunda noite bem na base da última subida.
A Punta Union Pass está a 4750ms de altitude e o último trecho fizemos debaixo de uma nevasca, mas com muita calma devido à falta de oxigênio, pela altitude.

Logo após a passagem iniciamos uma longa descida de 25kms onde nosso guia foi forçando o ritmo pois teríamos que chegar ao acampamento antes de escurecer.
Foi extremamente cansativo, mas ao chegarmos ao acampamento tivemos a grande satisfação da missão cumprida.
Mais uma pequena caminhada no quarto dia e fomos recolhidos pelo nosso transporte de volta à Huaraz.
Devido ao aquecimento global uma parte das geleiras e picos nevados da região já está desaparecendo.
Uma pena, mas ainda bem que pude curtir um pouquinho…

Debora Patlajan Marcolin, médica, 62 anos, muito curiosa com relação a diversidade cultural do nosso planeta. Viajo desde que me conheço por gente e tudo me atrai. Desde a minha vizinhança pobre de Carapicuiba até as cerimonias fúnebres de Tana Toraja na Indonésia, passando por paraísos naturais como o pantanal mato-grossense e deserto do Jalapão. Já conheci por volta de 75 países e não paro de projetar novos destinos. Entendo que para se viajar é preciso estar de peito aberto e abandonar todo tipo de preconcepção, que com certeza, a viagem vai te provocar profundas mudanças internas e gosto pela vida.

















