A arte da responsabilidade

Conheça mais sobre o Instituto Rodrigo Mendes e como ele tem transformado a vida de muitas pessoas

141_ol_instituto Rodrigo Mendes posa na frente de uma obra elaborada em uma atividade coletiva com intervenção urbana que faz parte do projeto Arte na Rua. Esta, em especial, foi pintada em uma praça no bairro de Santo Amaro e inspirada no pintor norte-americano, referência no movimento do expressionismo abstrato, Jackson Pollock.

Num espaço aconchegante e arborizado, tipicamente granjeiro, funciona o Instituto Rodrigo Mendes, uma organização não governamental comprometida com a construção de uma sociedade inclusiva por meio da arte. São 3.600 metros quadrados de muito verde que contam com um ateliê de arte, um centro de estudos e pessoas empenhadas em mudar o quadro da desigualdade no Brasil.

Esta é uma bonita história de transformação social que merece ser contada desde seu início, em 1994, quando o jovem Rodrigo Mendes fundou uma associação com seu nome, onde colocou em funcionamento uma escola de artes visuais focada em alunos portadores de deficiência. No entanto, visando à inclusão social dos aprendizes, foram abertas vagas para pessoas não deficientes e interessadas em arte. A ideia era estimular a convivência, o respeito e a inclusão.

Em 2007, a associação transformou-se em Instituto e passou a formar educadores de escolas públicas na área de educação inclusiva. Desde 1997, o Instituto aderiu a um conceito comercial, utilizando a produção artística dos alunos. O primeiro parceiro foi a Tilibra, uma das mais importantes empresas no ramo de papelaria. Os cadernos universitários levam nas capas as obras dos alunos, que recebem em dinheiro pela comercialização dos produtos.

RC: Qual a dimensão que o Instituto atinge hoje e pretende atingir em prol da questão sociocultural no Brasil?

Rodrigo: O Instituto tem pensado muito em como ampliar o impacto do seu trabalho, e este é um grande desafio para quem preza a qualidade. Nossa estratégia é canalizar esforços para a produção do conhecimento sobre as relações entre educação, arte e inclusão. Nos próximos anos, vamos focar no centro de estudos do Instituto e as parcerias serão estabelecidas com outras organizações para que possam ministrar este curso didático e preparar educadores para a inclusão. No ano passado, lançamos um livro que serve de recurso para educadores do Brasil inteiro. Achamos que isso terá um impacto muito mais expressivo do que um atendimento direto.

RC: Quantas pessoas o Instituto já formou e como funciona a captação de alunos?

Rodrigo: Depende do programa. O Programa Singular, de artes visuais, oferece cursos de um ano com atendimento direto, inclusive ofertando bolsas de estudo aos jovens de baixa renda de escolas públicas e instituições sociais. Nos ateliês são exploradas modalidades como pintura, desenho, gravura, colagem, escultura e modelagem, instalações e intervenções no espaço. Já passaram por este programa 1.400 bolsistas – as bolsas são oferecidas a pessoas com deficiência e em estado de vulnerabilidade social – e são abertas 100 vagas anualmente. Já o Programa Plural trabalha na formação de educadores por meio de parcerias com as prefeituras. Portanto, o Instituto vai até as redes públicas de ensino e monta grupos para discutir a educação inclusiva. O objetivo geral do programa é oferecer cursos de formação continuada, que tratam e investigam a temática da inclusão e exclusão, abordada com base nas artes visuais. O tempo de curso varia conforme a grade, portanto, pode ser um curso de dois meses ou de um semestre. No mínimo, 3.500 educadores já foram formados em diversas cidades.

RC: Explique sobre as parcerias com grandes empresas, como Tilibra, Bauducco, Kopenhagen e Pão de Açúcar.

Rodrigo: Essas parcerias acontecem por intermédio do Geração, que é um terceiro programa desenvolvido. O objetivo é colaborar para a sustentabilidade da nossa Instituição e explorar comercialmente a produção artística dos alunos. Nós vendemos o direito das imagens produzidas por eles e produzimos e vendemos produtos com a grife do Instituto. O Instituto repassa aos alunos um percentual do faturamento sobre tudo o que é vendido. Além do incentivo, é uma forma de gerar renda.

141_ol_instituto3RC: Todo ano o Instituto faz uma exposição. Conte como será a deste ano.

Rodrigo: Este ano acontecerá no Espaço Cultural da Würth, a partir de 1º de dezembro. Será aberta para visitação, e as pessoas poderão conferir alguns dos nossos projetos, como o Arte na Rua, que é um trabalho fantástico em que os alunos vão para a rua e pintam obras coletivas com base em uma intervenção urbana.

RC: Por que escolheu a Granja Viana para desenvolver este projeto e qual sua relação com a região?

Rodrigo: Minha relação é familiar. Meus pais moram na Granja. O Instituto precisava de um espaço mais amplo e próximo de São Paulo. A área, ainda, é supergenerosa e enriquecida com o verde, perfeito para trabalharmos com jovens, crianças e arte.

RC: Deixe uma mensagem para que mais pessoas se empenhem na questão da Responsabilidade Social.

Rodrigo: Acho que nós, como brasileiros, temos uma tendência a agir com uma visão mais individualista e menos coletiva. Não tem como pensar em melhoria social, em todos os aspectos da educação, se não houver a consciência de que os problemas do dia a dia são de responsabilidade de cada um. Acredito que somente assim conseguiremos construir um país mais cidadão e mais responsável.

O fim de um sonho e o começo de uma conquista
Aos 18 anos, apaixonado por futebol e com o sonho de ingressar no curso de Medicina, Rodrigo Mendes sofreu um assalto e foi baleado na coluna cervical na altura do pescoço. Como consequência, veio a tetraplegia. A partir disso, uma nova realidade formou-se na vida dele. Seu primeiro contato com a arte foi a convite de um artista. Rodrigo foi fazer aulas como lazer e percebeu que com esta experiência poderia ajudar e transformar a vida de muitas pessoas. Cursou Administração e mestrado na Fundação Getulio Vargas. Entre diversos prêmios, foi nomeado líder global 2008 com mais 250 personalidades, entre cinco mil participantes de 65 países.

Legenda Imagens: 1: A Kopenhagen elege o Instituto Rodrigo Mendes para ilustrar as embalagens e dar nome à caixa com os exclusivos tabletes de chocolate da marca. 2: Pinturas nas capas dos cadernos e nas agendas Tilibra. 3: Xícara e Boll pintadas pelos alunos do Instituto e comercializadas pelo Pão de Açúcar. Projeto Hope Cups.

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